Ver Netanyahu fora do poder seria renovação espiritual para Israel, diz brasileiro-israelense
Quando a reportagem o procurou em outubro de 2025 para conversar sobre os dois anos do ataque terrorista do 7 de Outubro, dias antes do cessar-fogo que diminuiu a intensidade do conflito na Faixa de Gaza, o brasileiro-israelense Gabriel Schorr falou em medo.
Disse ter comprado uma arma após o atentado, descreveu um cenário de otimismo no Oriente Médio que desmoronou e apontou ter sentido insegurança de maneira sem precedentes nos mais de 20 anos em que vive em Israel.
Hoje, Schorr começa a conversa de outra maneira. "A primeira sensação é: estamos fortes", diz à Folha em entrevista por telefone. "É a força talvez de uma pessoa que passou por muitas cirurgias, tem medo de ir pro hospital e não voltar, mas volta e valoriza a vida de outra maneira. Não recomendo para outras pessoas. Não é uma força alegre ou de vitória, mas sim de não ter caído até o final."
O guia turístico, judeu gaúcho radicado em Israel desde 1999, diz que o país vive hoje momentos intensos graças à campanha eleitoral —os israelenses vão às urnas no próximo dia 27 para renovar o Parlamento e possivelmente escolher um novo primeiro-ministro. "É assustador o quão importante esse mês pode vir a ser", diz Schorr.
As pesquisas apontam que o partido de Binyamin Netanyahu, atual premiê de Israel, deve perder espaço para a oposição. Entretanto, a permanência ou não de Netanyahu no poder depende de negociações com os diversos partidos que compõem o Knesset, o Parlamento israelense.
"Para mim, o dia depois de Netanyahu —não só porque ele sairia, mas por quem entraria no seu lugar— seria uma renovação espiritual para o povo de Israel", afirma Schorr. "Não sou eleitor dele, então penso não no fim desse governo, mas no começo do novo, espero que nas mãos de Gadi Eisenkot."
Eisenkot é a principal figura da oposição e cotado para suceder Netanyahu se sua coalizão obtiver maioria no Knesset. Ex-general e filho de judeus marroquinos, Eisenkot faz campanha prometendo desarmar de fato o Hamas e fazer uma investigação sobre as falhas que tornaram possível o 7 de Outubro. Assim como Netanyahu, entretanto, ele diz ser contrário à criação de um Estado palestino, na contramão da maioria da comunidade internacional.
Lá Fora
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"Há uma esperança muito grande de uma mudança dentro do Estado de Israel", diz Schorr. "Se isso vai mudar a opinião lá fora? A curto prazo, acho que sim. Tem pessoas no Brasil que não sabem pronunciar o nome do meu primeiro-ministro, mas sabem que ele é sinônimo de maldade", ri.
Por outro lado, o guia turístico não espera grandes mudanças na política externa israelense sob um premiê Eisenkot. "A visão mais humana e universalista dele poderia ter colocado um fim à guerra em Gaza mais cedo, mas não sei se ele teria deixado de atacar o Irã", opina.
Schorr afirma que outra importante mudança entre a marca de dois anos do 7 de Outubro e a de três anos, nesta quarta-feira (7), é o isolamento pelo qual passa Israel. "Nós estamos mais sozinhos do que nunca, é uma sensação que pesa o coração por aqui", afirma.
Schorr diz ainda que o cessar-fogo no território palestino poderia ter aliviado críticas feitas a Israel, mas que isso não ocorreu.
"Deveríamos ter uma campanha enorme no mundo a favor do desarmamento do Hamas. E não para que Israel continue em Gaza, para que saia e um governo tecnocrático árabe entre. Esse poderia ter sido o slogan da Assembleia Geral da ONU: condenamos a forma como Israel lutou na guerra, mas agora precisamos desarmar [o grupo terrorista]. Não vimos isso."
O brasileiro-israelense passou o último fim de semana no kibutz de Kfar Azza, visitando o túmulo de Tal Elion, amigo próximo que o Hamas matou no atentado do 7 de Outubro.
O que foi o 7 de Outubro, maior ataque terrorista da história de Israel
Na manhã do dia 7 de outubro de 2023, integrantes do Hamas e outros grupos terroristas palestinos entraram armados em território de Israel e assassinaram mais de 1.200 pessoas. O ataque foi o maior da história do Estado judeu e amplamente considerado o pior massacre de judeus desde o Holocausto.
Foram atacados kibutzim, comunidades, estradas e eventos que ocorriam próximos à fronteira. Entre os vários locais atacados, em ação que durou horas e cuja resposta inicial do governo de Binyamin Netanyahu foi criticada pela demora, o evento de música eletrônica próximo do kibutz Re'im teve o maior número de mortos: 378.
Além de massacrar civis, policiais e militares, os terroristas sequestraram 251 pessoas em território israelense que foram levadas para Gaza. Entre elas havia 44 pessoas já mortas.
A resposta israelense em larga escala reduziu a maior parte da Faixa de Gaza a ruínas, provocou uma crise humanitária sem precedentes e matou mais de 73 mil pessoas, a maioria civis, segundo o Ministério da Saúde de Gaza. O órgão está sob autoridade do Hamas e seus números são considerados confiáveis pelas Nações Unidas.
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