Lynas compra Meteoric e projeto de terras raras em MG por R$ 3,5 bilhões
A australiana Lynas Rare Earths fechou um acordo para comprar 100% da Meteoric Resources, dona do projeto de terras raras Caldeira, em Minas Gerais, em uma operação avaliada em cerca de R$ 3,5 bilhões.
Além do tamanho da transação, o negócio deve se tornar um dos primeiros grandes testes do novo modelo brasileiro de controle sobre ativos de minerais críticos. A conclusão da aquisição foi expressamente condicionada à obtenção das autorizações exigidas pelo recém-criado regime brasileiro, incluindo a homologação da mudança de controle societário.
A Lei nº 15.506, sancionada em setembro, criou o CIMCE (Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos) e deu ao colegiado o poder de homologar mudanças diretas ou indiretas no controle de empresas que detenham direitos minerários sobre minerais considerados críticos ou estratégicos.
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Na prática, o caso da Meteoric coloca rapidamente à prova uma das novidades mais sensíveis da nova política mineral: até onde o governo poderá impor condições para autorizar a transferência de um ativo considerado estratégico.
Os próprios documentos da operação mostram que a aprovação brasileira pode vir acompanhada de condições. Pelo contrato, a Lynas terá de tomar as medidas necessárias para conseguir o aval no Brasil e aceitar eventuais exigências que não sejam consideradas pesadas demais para o negócio.
Se as autoridades brasileiras impuserem uma condição considerada muito onerosa, Lynas e Meteoric terão de negociar uma saída, como reduzir, alterar ou substituir essa exigência. Se o aval for negado, não sair a tempo ou só vier com condições desse tipo sem acordo entre as empresas, a transação poderá ser encerrada.
O contrato vai além: se o negócio não for concluído porque a aprovação brasileira for recusada ou não for obtida até o prazo previsto, a Lynas poderá ter de pagar à Meteoric uma multa de A$ 8,8 milhões.
A nova política brasileira para minerais críticos tem entre seus principais objetivos ampliar o beneficiamento e a transformação desses recursos dentro do país. Por isso, além da mudança de controle em si, a agregação de valor de Caldeira no Brasil tende a entrar no radar da análise do negócio.
Agregação de valor no Brasil
A aquisição também abre uma discussão sobre quanto da cadeia de terras raras poderá permanecer no Brasil.
A Lynas já domina etapas industriais que hoje são um dos principais gargalos da cadeia global de terras raras. A empresa opera a mina de Mt Weld e instalações de processamento na Austrália, além de uma planta de separação na Malásia.
Segundo a companhia, é atualmente a única produtora comercial fora da China de óxidos separados de terras raras leves e pesadas.
Essa capacidade é particularmente relevante para Caldeira porque o Brasil possui grandes recursos minerais de terras raras, mas ainda tenta desenvolver as etapas mais sofisticadas da cadeia, como separação e produção de materiais de maior valor agregado.
Nos documentos da aquisição, a Lynas afirma que Caldeira poderá ser integrado às operações downstream já existentes da empresa na Malásia. Ao mesmo tempo, a companhia informou que vai estudar a possibilidade de processamento adicional no Brasil, em linha com os objetivos brasileiros de industrialização da cadeia mineral.
Isso ainda não significa que a Lynas decidiu construir uma planta de separação no país. A empresa fala, até agora, em estudos. Mas a entrada de uma companhia que já possui tecnologia e instalações comerciais de separação adiciona uma nova dimensão ao projeto brasileiro e pode colocar a discussão sobre agregação de valor no centro da análise do negócio pelo governo.
Projeto de 1,6 bilhão de toneladas
Caldeira está localizado em Minas Gerais e é descrito pelas empresas como o maior recurso conhecido de terras raras em argilas iônicas fora da China reportado segundo o padrão australiano JORC.
O projeto possui recurso mineral estimado em 1,631 bilhão de toneladas, com teor médio de 2.317 partes por milhão de óxidos totais de terras raras (TREO). A reserva mineral é de aproximadamente 151 milhões de toneladas, com teor médio de 3.524 ppm.
Dentro dos recursos já estimados, a Meteoric calcula a presença de cerca de 802 mil toneladas de óxidos de neodímio e praseodímio (NdPr) e 41 mil toneladas de disprósio e térbio (DyTb), elementos usados principalmente na fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho.
O estudo definitivo de viabilidade divulgado em julho prevê investimento inicial de aproximadamente US$ 498 milhões e vida útil de 23 anos.
A produção média projetada ao longo da operação é de 12,5 mil toneladas anuais de TREO, incluindo cerca de 3.862 toneladas de NdPr e 127 toneladas de DyTb por ano. O estudo também prevê produção de samário, gadolínio e ítrio.
O projeto já recebeu licença ambiental preliminar e a Meteoric informou que buscava obter a licença de instalação ainda em 2026.
Negócio em ações
A aquisição será realizada integralmente por meio de troca de ações. Cada acionista da Meteoric receberá 0,0207 ação da Lynas para cada ação da empresa que possuir.
Pelos valores médios das ações da Lynas nos 60 dias anteriores ao anúncio, a operação avalia o capital da Meteoric em A$ 968 milhões, o equivalente a cerca de R$ 3,5 bilhões pela cotação atual.
A proposta representa um prêmio de 68,4% sobre o último preço de fechamento da Meteoric antes do anúncio. Após a conclusão do negócio, os atuais acionistas da Lynas terão cerca de 94,1% do grupo, enquanto os investidores da Meteoric ficarão com aproximadamente 5,9%.
A Lynas também concordou em disponibilizar uma linha de financiamento de até A$ 110 milhões para que a Meteoric continue avançando Caldeira enquanto a aquisição passa pelas etapas de aprovação. Uma primeira parcela de A$ 35 milhões será disponibilizada após a assinatura do acordo.
A Meteoric afirmou ainda que, durante as negociações, a Lynas manteve conversas diretas com o governo federal e o BNDES para evitar atrasos no desenvolvimento do projeto.
Pelo cronograma apresentado pelas companhias, os documentos para votação dos acionistas devem ser enviados em dezembro. A assembleia está prevista para janeiro de 2027 e, caso sejam obtidas as aprovações societárias, judiciais e regulatórias — incluindo a brasileira —, a expectativa é concluir a aquisição até março de 2027.
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