O que mensagens e propostas de delação de Vorcaro revelam sobre Moraes

Em todas as três tentativas de firmar um acordo de colaboração, o banqueiro omitiu a totalidade das trocas constantes de mensagens com o ministro do STF. O banqueiro falou genericamente dos contatos, e citou especificamente apenas uma mensagem.
As propostas foram recusadas pelos investigadores, entre outros motivos, por escassez de elementos inéditos e suspeita de blindagem de autoridades. Procurado, o gabinete de Moraes não se manifestou.
As declarações de Vorcaro contrastam com mensagens encontradas no celular do banqueiro e detalhadas no relatório da Polícia Federal sobre as comunicações do ex-dono do Master com o ministro do Supremo.
O UOL teve acesso às três propostas de colaboração premiada de Daniel Vorcaro sobre Moraes. Os relatos passam por pequenas variações em cada documento, mas em nenhum deles o banqueiro atribui crimes ou favorecimentos por parte do ministro.
Na primeira proposta, apresentada em abril aos investigadores, Vorcaro diz que conheceu Moraes por intermédio do ex-ministro das Comunicações Fábio Faria. O banqueiro conta que "admirava o ministro" e o considerava "uma das figuras mais importantes no Brasil". Não por outra razão, tentou "criar uma amizade" com a autoridade, afirma no documento.
Ele diz que pediu diversas vezes para Faria marcar encontros com Moraes. "O colaborador, durante todo o tempo, tentou forçar uma relação com o ministro Alexandre de Moraes", diz a delação rejeitada.
Contratação do escritório
Nas propostas de delação, Vorcaro alega que passou a sofrer ataques e denúncias no início de 2024 por sua atuação como dono do Banco Master. Ele, então, teria decidido reforçar a equipe jurídica da instituição.
"O colaborador sempre procurou os melhores e mais influentes escritórios de advocacia, principalmente aqueles que não atuavam para bancos concorrentes. Foi diante desse contexto e querendo se aproximar do ministro Alexandre de Moraes, que teve a ideia de contratar o escritório Barci de Moraes Sociedade de Advogados", diz.
O banqueiro conta que o valor do contrato foi negociado diretamente com Viviane Barci, esposa de Moraes, e que os serviços prestados tinham natureza diversa: consultoria, atuação na área penal, combate a fraudes em crédito consignado, reestruturação do compliance, entre outros.
As mensagens e documentos analisados pela PF mostram que foram dois contratos. Um de R$ 130 milhões e outro de R$ 50 milhões que previa a dação de cotas de uso de aeronaves do banqueiro para a família de Moraes.
Sobre esses aviões descobertos pela PF, Vorcaro diz ainda, em sua primeira proposta de delação, que emprestou aeronaves privadas para a família de Moraes porque "estava preocupado com a segurança e a preservação de sua advogada Viviane e sua família em um momento de extrema exposição". Nos documentos enviados a PF e PGR nas outras rodadas da negociação, Vorcaro retirou o trecho em que falava sobre sua inquietação com a proteção de Viviane.
O relatório da Polícia Federal que detalha conversas entre Vorcaro e Moraes revela detalhes que vão em sentido oposto aos relatos feitos pelo banqueiro nas tentativas de colaboração premiada. As mensagens mostram preocupações do dono do Master com os pagamentos para o "careca", em referência a Moraes.
"Manda pagar a ele. O careca não pode atrasar", alertou Fábio Faria sobre o atraso no pagamento do contrato com o escritório da família de Moraes, em março de 2024. Minutos depois, Vorcaro cobrou um de seus auxiliares: "Angelo. Pqp. Nao pagaram barci de moraes. Nao to entendendo isso. Contrato mais importante que temos. Te pedi pra nao falhar. Surreal. Vamos ter problemas".
Vorcaro diz na tentativa de delação que as mensagens sobre os pagamentos ao "careca" era um "modo jocoso" de tratar do assunto, "para simplificar a conversa".
Encontros às vésperas da confecção de minutas e os metadados do contrato encontrados pela Polícia Federal reforçam as suspeitas de que o ministro Alexandre de Moraes participou das conversas sobre os acertos entre Vorcaro e o escritório de sua esposa. Uma das mensagens indica que Moraes editou a versão final do contrato antes de ser assinado com o banco Master.
Em nota, o escritório Barci de Moraes afirmou que o setor de compliance solicitou informações ao ministro Alexandre de Moraes sobre "eventual existência de impedimentos legais para a contratação nos termos propostos na minuta contratual, tais como ações no STF sobre sua relatoria ou mesmo participação em julgamentos de interesse do possível cliente".
"Diante da inexistência de previsão de atuação no STF ou de qualquer impedimento legal, uma vez que o ministro Alexandre de Moraes jamais julgou qualquer causa envolvendo o Banco Master, o contrato foi assinado e os serviços advocatícios devidamente prestados", completou.
Mensagens
Daniel Vorcaro disse aos investigadores em sua proposta de delação que conversou com Alexandre de Moraes, "como fez com inúmeros outros conhecidos", sobre suas "frustrações pessoais relativas à fusão com o BRB e ao processo de liquidação do Banco Master".
"Em desespero para salvar o banco, ele pediu ajuda ao ministro, assim como a outros conhecidos com influência, para que intercedessem junto a autoridades como Gabriel Galípolo. Contudo, o colaborador não obteve retorno", diz.
O banqueiro também afirma que teve conhecimento prévio de investigações em andamento na Justiça Federal de Brasília e que "contatou diversas pessoas, incluindo o ministro Alexandre de Moraes, buscando informações".
Vorcaro encerra o anexo sobre Moraes dizendo que "reconhece ter sido inconveniente" com o ministro, "enviando-lhe múltiplas mensagens, as quais foram respondidas apenas com falas de apoio genérico sem qualquer ação efetiva para ajudá-lo".
A análise feita pela Polícia Federal nas mensagens de Vorcaro sugere interações mais profundas. Em um dos diálogos, o banqueiro pergunta se "médio ou grave" seria uma busca e apreensão ou uma quebra de sigilo. Ele queria saber sobre os pedidos feitos pela PF no inquérito em andamento contra ele.
Em relatório enviado ao Supremo, a Polícia Federal informou ter recuperado 52 mensagens escritas em bloco de notas por Vorcaro e enviadas a Moraes entre 28 de outubro e 17 de novembro de 2025, dia em que o banqueiro foi preso pela primeira vez.
Os dois usavam um método para se comunicar de forma sigilosa. Escreviam suas mensagens no aplicativo do bloco de notas do celular, faziam a captura da tela e enviavam o arquivo no modo de visualização única. Por causa da técnica, a PF não conseguiu recuperar no celular de Vorcaro as mensagens enviadas a ele por Moraes.
As mensagens indicam que não era só Vorcaro que procurava Moraes, mas que o próprio ministro iniciava conversas sobre assuntos sigilosos da investigação da Polícia Federal. Na antevéspera de ser preso, a primeira mensagem enviada pelo banqueiro era uma resposta ao ministro do Supremo.
"Que loucura, bem na semana que estou resolvendo tudo. Aquele mesmo juiz Ricardo? E o Galipolo ta sabendo? Conseguimos fazer algo? Acha que segunda ja tenho que estar fora?", escreveu Vorcaro ao ministro. Ricardo era uma referência a Ricardo Leite, juiz federal de Brasília que decretou a prisão do banqueiro.
Como o UOL mostrou, Vorcaro alterou seu plano de voo depois da conversa com Moraes e antecipou para a segunda-feira seguinte, 17 de novembro de 2025, sua viagem aos Emirados Árabes. Ele foi preso ao tentar embarcar no avião, no Aeroporto de Guarulhos.
"Não conseguimos reverter isso com Paulo e Andrei? Muita sacanagem isso. Isso em Brasilia?", prosseguiu o banqueiro, fazendo referência a Paulo Gonet (chefe da PGR) e Andrei Rodrigues (chefe da PF).
A conversa entre Vorcaro e Moraes avança até as 22h43 do dia 15 de novembro. No dia seguinte, Vorcaro pega um voo para se encontrar pessoalmente com o ministro, mostram as mensagens.
"Você acha que existe alguma chance disso acontecer amanhã de manhã?", pergunta Vorcaro a Moraes no domingo, véspera de sua prisão. A operação estava prevista para terça-feira.
Na segunda, 17 de novembro, quando foi preso, Daniel Vorcaro enviou cinco mensagens para Alexandre de Moraes. Ele disse que fez uma "correria pra tentar salvar" o banco, perguntou se "conseguiu ter notícia ou bloquear" algo, sem entrar em detalhes, e que "amanhã começam as batidas do Esteves", em referência ao dono do banco BTG, André Esteves.
Logo após essas mensagens, Vorcaro foi preso ao tentar fugir do Brasil. A detenção foi o primeiro capítulo da operação Compliance Zero, cujos desdobramentos resultaram na maior crise do STF e no julgamento que decidirá se a relação de Alexandre e Daniel Vorcaro será investigada.
Reportagem
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