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Thursday, September 10, 2026

"PS não alinha em onda irresponsável de propostas do Chega"

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O deputado e dirigente do PS entrou na entrevista, no programa Vichyssoise do Observador, a ser claro quanto ao destino a dar ao atual ministro da Administração Interna. O PS tem evitado pedir a demissão direta, mas Miguel Costa Matos garante que se fosse Luís Montenegro já teria afastado Luís Neves do Governo. Numa altura em que o Executivo surge debaixo de fogo, o socialista acusa o primeiro-ministro de ser “incapaz de desenterrar a cabeça da areia”, mas recusa que isso seja suficiente para o derrubar nesta altura.

Está à cabeça do novo think tank da esquerda, que inclui figuras como Duarte Cordeiro, mas desvia-se do assunto quando a questão é se ali pode estar um caldeirão de ideias para uma nova liderança socialista. Carneiro “tem condições” para ser o candidato do PS nas próximas legislativas, garante o socialista que foi autor da moção mais crítica da atual direção que foi apresentada no último Congresso do partido.

Depois de ter apontado ao líder uma excessiva colagem aos partidos que governam, Costa Matos considera agora que Carneiro tem sido “mais contundente com o Governo.” Mostra-se confortável com a opção da abstenção socialista no Orçamento do Estado, mas desconfia que este ano ainda há margem para acomodar mais medidas para fazer face ao aumento do custo de vida dos portugueses. “Se não houvesse mais dinheiro, o Governo não teria agora anunciado uma descida do IRS e um suplemento nas pensões”, desconfia. O PS quer, pelo menos, mais duas — a redução do ISP e do IVA no cabaz alimentar –, mas assegura que não o fará se isso comprometer o equilíbrio orçamental.

“Se fosse Luís Montenegro, já teria demitido Luís Neves”

À boleia do caso Luís Neves, o Chega apresentou esta semana uma moção de censura. O PS decidiu abster-se, mas acabou por ficar pouco clara a posição do partido. Luís Neves tem ou não condições para continuar no cargo?
Penso que Luís Neves deixou muito a desejar nas suas explicações. Isso é, desde logo, uma conclusão importante. Não desvalorizamos uma cultura de informalidade em que parece que os fins justificam os meios. Depois, para além disto, há um problema do ponto de vista da gestão do Governo. Não só há um governo que, de facto, está sem rumo e que não está a responder a um conjunto de desafios, e nós, como partido de oposição, temos levantado essas questões, mas a própria autoridade do Governo e do ministro sai muito fragilizada. E nesse sentido, se fosse Luís Montenegro, já teria demitido Luís Neves.

Ainda assim o PS abstém-se na moção de censura do Chega e, ao mesmo tempo, pede a Luís Montenegro para se distanciar de André Ventura – até que coloca essa condição como parte das negociações para o Orçamento do Estado. Não teria sido mais claro votar contra e distanciar-se da iniciativa do Chega? Esta foi a primeira vez que o Partido Socialista não votou contra uma moção de censura apresentada pelo Chega…
Se votássemos contra, logo teríamos alguém, jornalista ou outro partido a dizer que estávamos a ser demasiado brandos com o Governo. E temos tido pessoas que confundem a nossa postura de responsabilidade em relação ao Orçamento, em relação a algumas matérias desse género, como estando, de alguma forma, a permitir que o Governo faça a sua política. Mas o PS tem sido muito determinado a combater várias iniciativas do Governo e o pacote laboral é um exemplo disso, embora não o único. E, portanto, penso que a abstenção do PS sinaliza isso mesmo. Estamos em grande desacordo, estamos em combate a este Governo, temos uma alternativa a este Governo, mas não alinhamos na utilização de um instrumento que é desproporcional, que não faz sentido derrubar um governo, por causa de um ministro que perdeu, de facto, a autoridade e um primeiro-ministro que é incapaz de desenterrar a cabeça da areia.

Mesmo dentro do PS há pessoas que consideram que podia ter sido esse o sentido de voto do PS. A questão é se devia existir uma linha vermelha em relação a iniciativas do Chega, uma coisa já definida à partida, em que o PS não aprovava iniciativas do partido.
No passado já tentámos esta estratégia do chamado cordão sanitário, que aliás existe, por exemplo, na Alemanha. E o que podemos perceber ao olhar para os diferentes exemplos pela Europa é que o cordão sanitário não contém o crescimento da extrema-direita, mas a colaboração com a extrema-direita, nomeadamente por partidos de centro-direita, também não o contém. Haver também uma imitação, ou um bocadinho de populismo de esquerda, como alguns gostam de dizer, da extrema-direita, ou pelo menos do seu tom, ou de algumas preocupações, nenhuma destas diferentes táticas funciona. Só há uma saída para conseguirmos combater a extrema-direita e isso vê-se, por exemplo, em algumas partes dos Estados Unidos, mas sobretudo mais recentemente em Inglaterra, com Andy Burnham. A solução é darmos às pessoas respostas, porque enquanto André Ventura culpa o outro, enquanto André Ventura puxa pelo ressentimento, nós precisamos de ser capazes de dar às pessoas uma esperança credível e isso implica que quando elas olham para as instituições que construímos ao longo destes anos, o Serviço Nacional de Saúde, a própria democracia, encontram muitas frustrações. E veem os políticos só dizer “é preciso defender a democracia, é preciso defender o Estado Social”. Não chega. São precisas novas ideias para responder às frustrações presentes e para responder aos desafios do futuro.

Mas essa é uma resposta que acaba por levar tempo a conseguir e a pôr em prática e nos intervalos, o PS vai votando a favor de cerca de um terço de iniciativas vindas do Chega no Parlamento. Isto não é estranho para um partido que, como recordou, já defendeu um cordão sanitário e que agora continua a querer fazer esse distanciamento face a André Ventura?
Se nós tivéssemos uma solução tática para conseguir limitar o crescimento da extrema direita, então seria muito fácil de adotá-la. O que nós temos que compreender é que não podemos deixar que a extrema direita, através dos nossos guiões de votações, possa criar notícias, possa criar alarido, possa criar confusão em relação ao posicionamento do PS.

Então o posicionamento é só tática, não é uma coisa que tem a ver com convicções profundas.
Não, o que lhe estou a dizer é que não faz sentido adotar um posicionamento tático, chumbar tudo do Chega, independentemente de nós concordarmos mais ou concordarmos menos. Por vezes eles apresentam iniciativas muito semelhantes àquelas que nós próprios estamos a apresentar. O que lhe estou a dizer é que nós, em vez da tática, devemos utilizar uma análise sobre a substância das medidas, porque é isso que também evita que o Chega possa instrumentalizar as nossas votações contra nós, junto com os eleitores.

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