Oposição da Argentina exige explicações de Milei sobre fuga de Flávio
A oposição na Argentina impulsiona desde esta terça-feira (27) diversas iniciativas para pressionar o governo de Javier Milei a explicar a participação na fuga de Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no último domingo (25).
O senador desembarcou nos Estados Unidos na manhã desta quarta-feira (28) após passar por Argentina e Equador em circunstâncias ainda não esclarecidas. O que se sabe até agora é que ele usou um passaporte italiano para entrar no país vizinho às 23h52 de terça, partiu de Porto Iguaçu à 0h22 em um jato privado, fez escala em Guayaquil, no Equador, e pousou em Miami às 10h23.
A reportagem localizou seis iniciativas entre pedidos de esclarecimentos, convocações de ministros e até mesmo uma denúncia penal contra Milei, o chanceler Pablo Quirno, a ministra de Segurança, Alejandra Monteoliva, e Santiago Caputo, estrategista político e braço direito do ultraliberal que, segundo a imprensa argentina, esteve em Porto Iguaçu para ajudar Flávio e a família.
Diante do alto número de demandas, o líder do União pela Pátria, que conta com 92 das 257 cadeiras da Câmara dos Deputados e é a maior bancada de oposição da Casa, publicou no começo da noite desta quarta uma carta na qual, em nome do bloco que representa e de outros, pede esclarecimento sobre o caso.
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A newsletter da Folha sobre América Latina, editada pela historiadora e jornalista Sylvia Colombo
No documento divulgado por Germán Martínez, a oposição exige que o governo responda aos pedidos de esclarecimentos feitos pelos legisladores, apresente o chefe de gabinete, o chanceler e a ministra de Segurança na Câmara dos Deputados; e reconheça a vitória de Lula —algo que apenas a Argentina ainda não fez em toda a América Latina.
O envolvimento de Milei na fuga de Flávio, que em uma carta divulgada horas após chegar aos EUA agradeceu ao aliado pela "coragem, justiça e senso de legalidade", ocorre um ano antes das eleições nas quais o ultraliberal deve tentar se reeleger para outro mandato de quatro anos.
"A Polícia Federal, a Polícia de Segurança Aeroportuária e a Direção Nacional de Migrações não aplicaram nenhum tipo de controle preventivo da entrada no país —e da posterior saída— de uma pessoa que, como todos sabemos publicamente desde a tarde de segunda-feira, estava impedida de sair do Brasil e teve seu passaporte retido", afirma o deputado Esteban Paulón.
O político do Partido Socialista é autor de duas iniciativas relacionadas à fuga.
A primeira, pede informações como registros de entrada e saída de Flávio na Argentina entre o último domingo e esta quarta e dados de movimentação da aeronave na qual o senador voou para Miami, operada pela empresa Baires Fly S.A.
A companhia em questão é citada em uma investigação de lavagem de dinheiro envolvendo contratos públicos de insumos médicos na Argentina —escândalo que no ano passado levou à queda do advogado Diego Spagnuolo, ex-diretor da Andis (Agência Nacional de Pessoas com Deficiência) e figura próxima a Milei.
A segunda iniciativa é uma denúncia contra Milei, Quirno, Alejandra e Caputo por suposto encobrimento agravado, crime por "ajudar alguém a eludir as investigações da autoridade ou a subtrair-se à ação desta" tipificado no Código Penal argentino.
Dificilmente a ação vingaria, mas, ao lado das outras propostas, pode desgastar ainda mais a imagem do presidente argentino, que já sustenta índices de rejeição altos. De acordo com uma análise de 11 pesquisas feita pelo jornal Clarín, 57% dos argentinos desaprovam o governo Milei, e 57,2% acham a imagem dele negativa.
"Acho que isso causou um impacto muito grande em todo o espectro de oposição a Milei. Existe uma contradição flagrante entre o discurso que eles pregam e as suas ações. É um governo que vive falando em políticas de segurança linha-dura e na ideia de que "quem faz, paga", mas, quando se trata de aliados, eles os protegem", diz Myriam Bregman, dirigente do PTS (Partido dos Trabalhadores Socialistas).
A deputada, que se destaca em pesquisas de opinião, fez um pedido para o Executivo informar, em um prazo de uma semana, detalhes da entrada, do trânsito e da saída de Flávio e sua família na Argentina, incluindo esclarecimentos sobre funcionários que tiveram conhecimento prévio da viagem do senador e a confirmação de que Caputo esteve no aeroporto de Porto Iguaçu.
A maioria dos argentinos desaprovou os ataques de Milei a autoridades brasileiras no final de julho, durante o lançamento da campanha de Flávio em São Paulo. A atitude do ultraliberal, que deu início à mais recente crise entre ele e Lula, foi reprovada por 70,5% dos argentinos no começo de agosto, segundo pesquisa da empresa argentina de consultoria de opinião pública Zuban Córdoba.
"É muito difícil tentar apresentar o povo brasileiro e o povo argentino como inimigos, quando até nas coisas do cotidiano —como as férias ou a paixão pelo futebol— percebe-se que são povos muito irmanados", diz Myriam.
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