Fukuyama e a ascensão do populismo

O homem que ficou conhecido por ter decretado “O Fim da História” com a queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética ficou para sempre associado a essa ideia. Mas, num mundo atual de crescimento do populismo, guerras e autoritarismo, muitos apontaram-lhe o dedo: afinal, não tínhamos caminhado para a democracia liberal e prosperidade económica que a década de 1990 em tempos prometeu.
Quase 35 anos depois da publicação de Fim da História e o Último Homem (ed. Gradiva), Fukuyama veio repor a sua verdade com No Reino do Último Homem, publicado pela D. Quixote no passado mês de outubro. “Muitos críticos ocasionais da ideia do ‘fim da História’ não leram o que eu escrevi para além do título, e, sobretudo, não prestaram atenção aos últimos cinco capítulos de O Fim da História e o Último Homem“, escreve o autor na mais recente obra. “Esses capítulos contêm uma clara premonição da ascensão do tipo de populismo demagógico que temos experienciado desde meados da década de 2010 até hoje, uma ascensão que ameaça a estabilidade da democracia na sua metrópole, os Estados Unidos.”
Não se pense, porém, que No Reino do Último Homem é apenas um ajuste de contas. O livro mistura ensaio com memórias da infância e da vida adulta, a história da sua família — o avô fugiu do Japão para os EUA para fugir à mobilização para o Exército Imperial Japonês, a avó partiu para a América para casar com um homem que ainda não conhecia —, o gosto pela fotografia e a carpintaria, mas também uma reflexão sobre a turbulência dos tempos em que vivemos.
Nesta entrevista com o Observador, que teve lugar apenas um dia antes das eleições intercalares que viriam a dar uma vitória estrondosa ao Partido Democrata, Fukuyama fez uma previsão certeira sobre Donald Trump, que considera ser agora um homem “que perdeu a frescura”, que repete “os mesmos slogans até à exaustão” e que, depois de lançar uma guerra contra o Irão, já não se pode assumir como o outsider que disse ser durante tantos anos. “Muitos republicanos vão perceber que Trump se tornou um fardo para eles e que a associação à sua figura impede a reeleição”, diz, a partir da Califórnia. “Estamos há 12 anos à espera deste momento e creio que ele pode ter finalmente chegado.”
Mas Fukuyama não se limita a olhar para os Estados Unidos. A Inteligência Artificial, o Médio Oriente pós-guerra do Iraque (que o fez afastar-se dos amigos neocons) e as guerras identitárias também o preocupam. Já para não falar da ascensão do populismo que, considera, não se baseia apenas em descontentamento com a situação económica das pessoas. “O facto de os banqueiros ricos terem saído bem da crise, enquanto os cidadãos comuns perdiam as suas casas, criou ressentimento, que foi agravado pela perceção de que as elites responsáveis pelo colapso não prestaram contas e continuaram a olhar com desdém para quem sofreu as consequências”, afirma. “A desigualdade económica transforma-se muito facilmente numa desigualdade de respeito.” Estas e outras ideias numa conversa com um homem que em tempos esteve próximo do Partido Republicano, mas que hoje se coloca firmemente ao centro — um lugar solitário num mundo cada vez mais polarizado.
No livro refere a ideia de Hegel de que o pensamento e as instituições humanas não são imutáveis e evoluem ao longo do tempo. Dá inclusive o exemplo da monarquia e da escravatura e de como a nossa perspetiva sobre elas se transformou. Pergunto-lhe, por isso, se considera que os ideais de democracia e de igualdade de direitos que hoje defendemos no Ocidente também podem regredir — seja de forma permanente ou cíclica. Em suma: corremos o risco de perder a democracia para sempre ou trata-se de um retrocesso temporário do qual é possível recuperar?
Acho que é preciso distinguir entre períodos de retrocesso da democracia e o descrédito da própria ideia de democracia — acho que são duas coisas diferentes. Já tivemos retrocessos no passado, nas décadas de 1930 e 1970, mas a democracia acabou por regressar. Há, no entanto, questões sobre o futuro da democracia para as quais não tenho resposta e que podem implicar um desagregamento mais profundo do sistema. E grande parte disso prende-se com a tecnologia, uma vez que qualquer sistema político ou conjunto de ideias políticas é, em última análise, profundamente condicionado pela tecnologia de cada época. Quando existiam reis e aristocratas, vigorava um sistema feudal agrário assente no campesinato e na sua opressão. Em grande medida, a emergência de uma sociedade industrial, com níveis de riqueza e de escolaridade muito mais elevados, foi o que tornou a democracia possível — até porque não se pode ter um sufrágio de massas se as pessoas não souberem ler ou forem analfabetas. Mas a evolução tecnológica não parou. Num livro que publiquei no início dos anos 2000 sobre o futuro pós-humano, abordei o impacto potencial da biotecnologia. Se for possível alterar a natureza humana, altera-se a própria natureza dos direitos, o que teria consequências profundas. Com o advento da Inteligência Artificial, enfrentaremos toda uma nova série de desafios. E não sei como serão resolvidos, até porque teremos máquinas capazes de tomar decisões humanas a substituir os decisores humanos. Acredito que haverá uma tentação fortíssima de delegar a tomada de decisão democrática em máquinas, o que pode perfeitamente agravar as desigualdades. Há, portanto, todo um conjunto de vias pelas quais esta nova vaga tecnológica pode ser altamente destrutiva para o modelo de política democrática que conhecemos até hoje. Mas não sabemos. Resposta curta: não sabemos, são meras especulações.
É interessante como a tecnologia, em particular quando falamos de IA, não se limita a evoluir a par do resto do mundo, mas parece fundir-se com a própria política. Vemo-lo na China, mas também nos EUA, onde as grandes empresas tecnológicas surgem de algum modo associadas ao atual Presidente. Considera que isso aumenta ainda mais o risco?
Bem, considero que a competição geopolítica dificulta a regulação da tecnologia. É claramente o que se passa nos EUA. Quando se defende que devíamos regular a IA ou desacelerar o seu desenvolvimento, a primeira reação é: “Então e a China?” A ideia de que, se abrandarmos, a China nos ultrapassará na corrida à superinteligência — ou seja qual for a meta desta competição — torna o esforço regulatório mais difícil. Não estou totalmente convencido de que este seja um argumento imbatível. Parece-me que, se a tecnologia for tão perigosa como alguns sustentam, o próprio Governo chinês não quererá simplesmente promovê-la às cegas. Estão muito focados em manter o controlo; se estas máquinas não puderem ser efetivamente controladas, o regime também não terá interesse nisso. Por isso, não excluo a possibilidade de alcançarmos algum tipo de acordo relevante para limitar a tecnologia, embora a rivalidade geopolítica torne isso difícil. Acresce que, nos próprios Estados Unidos, as grandes empresas estão a competir para atingir a Inteligência Artificial geral, e essa competição interna impede qualquer uma delas de abrandar.
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.