O que a Alemanha e a Suécia nos dizem sobre o “não é não”

O estado da Saxónia-Anhalt é um dos mais pequenos e sobretudo um dos mais pobres da Alemanha, mas desde a semana passada que está no centro da política europeia. E talvez não nos enganemos se acrescentarmos que a vitória esmagadora da AfD – Alternative für Deutschland — está a ter um impacto que ultrapassa em muito as fronteiras do país.
Não admira. Primeiro, a AfD teve 43,8% dos votos, ultrapassando as previsões das sondagens e numa eleição altamente participada, mesmo a mais participada de sempre. Ou seja, mais do que duplicou a sua votação relativamente a 2021, quando obteve pouco mais de 20% dos votos. Ao mesmo tempo as sondagens indicam que, a nível nacional, o partido surge em primeiro lugar, bem à frente da CDU do actual chanceler, estando a duplicar ou quase duplicar as suas votações mesmo em eleições locais na antiga Alemanha Ocidental e em regiões ricas.
Depois, a AfD não é apenas um partido populista como tantos outros – é porventura o mais radical e extremista de todos os que têm tido sucesso eleitoral, defendendo o levantamento das sanções contra a Rússia, criticando o apoio à Ucrânia e querendo-a fora da União Europeia e, na política interna, exigindo políticas de remigração e sendo acusado de tentar normalizar o passado mais negro da Alemanha. O seu extremismo é tal que o grupo europeu que integra o partido de Marine Le Pen e o nosso Chega o expulsou antes das eleições de 2024 por o seu cabeça de lista ao Parlamento Europeu, Maximiliam Krah, ter considerado ser “errado” afirmar que todos os membros das SS eram “criminosos”.
Um sucesso com razões conhecidas
O mais extraordinário porém é que as razões do sucesso eleitoral da AfD são conhecidas. É conhecida a decadência económica da Alemanha. É conhecida a incapacidade de promover reformas que permitam o relançamento da economia. É conhecido o impacto negativo que tiveram algumas das medidas adoptadas no quadro da chamada “transição energética”. É sobretudo conhecido o mal-estar criado pelas recentes vagas migratórias.
O momento de viragem foi a decisão, em 2015, de Angela Merkel de abrir as portas do país aos refugiados da Síria – a frase “Wir schaffen das”, “podemos fazê-lo”, tornou-se mesmo icónica, o que levou à entrada em poucos meses de mais de um milhão de estrangeiros, com impactos enormes nos serviços públicos, sobretudo nas estruturas do Estado Social. E apesar de a maioria dos que chegaram se terem integrado, registou-se um aumento do extremismo, do antissemitismo e da criminalidade. Isso mesmo: da criminalidade. A Alemanha tem estatísticas e nelas os estrangeiros surgem sobrerrepresentados na criminalidade: em 2023, por exemplo, 39% dos condenados não tinham passaporte alemão, uma proporção muito superior à sua presença no país.
Esta mudança demográfica foi o gatilho que levou ao rápido crescimento da AfD. Em 2013 o partido era pouco mais do que um grupo de economistas que se opunham ao euro e aos apoios à Grécia, mas isso durou pouco tempo. Em 2017, quando conseguiu eleger 94 deputados, a AfD já se tinha radicalizado, o que não obstou a que continuasse a crescer eleitoralmente, sendo que na última eleição, em 2025, chegou aos 152 deputados.
A regra do “cordão sanitário”
Durante todo este tempo a AfD foi sempre tratada como um pária pelos restantes partidos alemães. A regra sacrossanta foi a do “cordão sanitário”, uma regra que se manteve até quando o partido começou a ganhar eleições nos Länder da antiga Alemanha de Leste. Mesmo agora, quando ficou a apenas três mandatos da maioria absoluta na Saxónia-Anhalt, nenhum dos partidos tradicionais parece disposto a deixar que governe – apenas um outro partido populista, mas de extrema-esquerda, estará inclinado a abrir conversações.
O que nos leva a outro ponto, à política pura e dura: o que aconteceu não se deve apenas às dificuldades económicas da Alemanha ou à imigração – é também uma consequência de escolhas feitas por Merkel que continuam a condicionar as opções da CDU, o grande partido cristão-democrata da direita alemã. Primeiro, o cinismo com que interpretou o princípio de que à direita da CDU não podia haver nada (até porque os tribunais o proibiriam), achando que tinha esse flanco protegido e que podia virar à esquerda. Enganou-se: a AfD acabou por provar que havia espaço à direita da CDU.
Ao mesmo tempo, ao definir a política do “cordão sanitário”, acreditou que podia isolar e secar a AfD, e aconteceu precisamente o contrário: o partido beneficiou de ser praticamente o único da oposição num tempo de sucessivos “blocos centrais” CDU-SPD, enquanto o seu isolamento acabou a impulsionar a sua radicalização, congresso após congresso.
A Alemanha confronta-se assim com o pior dos dilemas: como lidar com um partido que se desejou marginal mas que está em vias de se tornar o preferido dos eleitores? Se a estratégia da “cerca sanitária” não resultou, será que há alternativa? Para onde olhar uma vez que o mesmo pode estar em vias de acontecer em França, onde a União Nacional de Marine Le Pen já é regularmente o partido mais votado e a sua líder a favorita para ganhar as presidenciais de 2027?
E que tal olhar para a Suécia, a Finlândia, a Áustria, os Países Baixos?
Uma hipótese é olhar para a Suécia, onde houve eleições este domingo. Ainda não é claro que governo possa sair do novo parlamento (na altura em que escrevo nem sequer todos os votos estão contados), os sociais-democratas tiveram o seu pior resultado em 100 anos mas mesmo assim podem voltar à chefia do executivo pois a coligação de centro-direita, cujo governo dependia do apoio parlamentar dos radicais dos Democratas da Suécia, perdeu a sua maioria precisamente porque esses radicais caíram eleitoralmente (o partido Moderado, o do primeiro-ministro, até subiu).
O que é que isto pode significar? Aquilo que muitos cientistas políticos têm colocado como hipótese: quando os partidos radicais são chamados a partilhar responsabilidades governativas, mesmo que só por via de apoios parlamentares, acabam por ser confrontados com os limites das suas propostas políticas e por experimentar o desgaste típico da governação em tempos difíceis. Em Portugal aconteceu com as esquerdas radicais trituradas pela geringonça, na Suécia pode ter acontecido com a sua direita radical.
Quando se olha para a experiência de outros países esta ideia parece confirmar-se. Na Áustria, o primeiro país onde um partido radical de direita chegou ao poder – o FPÖ de Jörg Haider –, a experiência de 2000-2002 foi catastrófica: caiu de 26,9% para 10%. Em 2017 voltou ao governo e voltou a cair, desta vez de 26% para 16,2%. Nos Países Baixos a experiência é mais recente, pois só em 2023 o PVV de Wilders chegou ao governo, mas este não durou muito e o partido caiu de 37 para 23 lugares no parlamento em 2025. A experiência finlandesa também não é muito diferente: o partido dos “verdadeiros finlandeses” foi eleitoralmente castigado depois da sua primeira experiência ministerial.
Alguns estudos académicos recentes – como este – parecem confirmar a hipótese de que a existência de “cordões sanitários” resulta por regra em governos menos predispostos a atender às inquietações dos partidos radicais, o que depois se traduz em melhores resultados eleitorais desses mesmos partidos. O que até faz sentido se formos às origens desta ideia de criar uma barreira – muitas vezes mais moral do que política – entre os partidos da direita tradicional e os novos partidos populistas, ou radicais, de direita, sempre apresentados como fascistas, ou pós-fascistas, ou nazis, ou neonazis, ou racistas, ou o que quer que possa desconsiderá-los mesmo quando tais acusações fazem pouco sentido.
Mitterrand, esse supremo Maquiavel
Recordemos pois François Mitterrand, esse supremo Maquiavel, que ainda na década de 1980 viu na Frente Popular do pai Le Pen, e na construção de uma barreira entre esse partido e a direita republicana, uma forma de dar à esquerda mais hipóteses de se manter no poder ao impedir a direita de fazer aquilo que a esquerda conseguira precisamente da primeira vez que Mitterrand chegou ao Eliseu: unir-se no apoio a um só candidato.
A cerca sanitária, a que em França se chama pomposamente “Frente Republicana”, foi permitindo à esquerda francesa estar mais tempo no poder do que resultaria da simples aritmética eleitoral e, ao mesmo tempo, foi sempre barrando o caminho do poder, e até do parlamento, aos apoiantes da direita nacionalista, mesmo quando esta crescia, crescia e crescia.
Não surpreende por isso que o nosso Chega tenha sido em boa parte uma criação dos socialistas, que inicialmente viram nele uma forma de limitar o crescimento da alternativa à sua direita e, depois, acreditaram que podiam mobilizar o eleitorado das esquerdas em nome da criação de “uma barreira ao Chega”. Em 2022 isso ainda permitiu a António Costa conquistar uma maioria absoluta, mas todos sabemos o que se seguiu: os escândalos da governação e o desconchavo da política migratória escancararam as portas a um André Ventura que, no Parlamento, tinha vindo a ser promovido por um Augusto Santos Silva de má memória.
Podia ter sido diferente? Claro que podia, mas o mal feito – em Portugal, em Espanha, na França, na Alemanha – é tão grande que começa a ser difícil reconstruir uma casa em ruínas. Há “cercas sanitárias” que, bem vistas as coisas, não só fizeram muito mal aos nossos regimes como nos distraíram do essencial, um essencial que devia começar por ter respeito pelos eleitores e pelas suas inquietações. Quando em vez disso se prefere erguer dedos acusatórios, o feitiço acaba por virar-se contra os feiticeiros (que são muitos, infelizmente).
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