Observador Desporto·Portugal·Thursday, September 10, 2026 at 08:14 PM
Monarquias: as novelas das vidas realmente reais
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Tiago Pereira
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Não é de agora, mas há semanas em que o facto se torna mais óbvio. Esta que está a terminar foi mais uma, graças ao funeral de Harald V, o rei da Noruega que morreu há poucos dias, aos 89 anos. O facto é este: nas repúblicas, as “pessoas” — essa entidade sem corpo nem personalidade jurídica ou fiscal — interessam-se pelas monarquias.
Umas gostam genuinamente das famílias reais, adorariam ter uma e contemplar reis e rainhas, alimentar tradições e fotografar paradas. Para outros, é um interesse próximo daquele que muita gente nutre por crianças, cães ou a vida no campo: só se as primeiras e os segundos forem dos outros e só se a terceira for de passagem e sem trabalho à mistura. E há um terceiro grupo, o dos voyeurs que apenas esperam pela próxima tragédia ou pelo escândalo que há de vir.
A razão pode ser a mesma para todos estas coletividades: a monarquia exerce fascínio porque é coisa que não parece deste tempo e que, por alguma razão (ou várias), sobreviveu. Como se os dinossauros tivessem vencido a batalha contra o meteorito fatal. Como se os jornais em papel tivessem mantido o lugar que tinham antes da digitalização da vida em geral. Como se as cidades tivessem triunfado face às transformações ditadas pelas viagens low-cost.
Trata-se da verdadeira novela da vida real, pelo trocadilho vocabular e porque, como estão lá longe (para estes efeitos, Badajoz é longe), são vistas como uma fantasia que podia muito bem ser escrita por guionistas especializados na área. Ao mesmo tempo, é a mesmice corriqueira a acontecer aos mais especiais dos especiais. Como é que reviravoltas, polémicas e tragédias que sucedem à humanidade comum batem à porta de quem habita em palácios? Como é que nesse ambiente decorrem os mesmos dilemas de quem aluga um T2 na praceta? E como é que se lida com tudo isso mantendo penteados impecáveis e um guarda-roupa que dita tendências?
Para quem vê de longe, fazer parte de uma família real parece ser um misto de glamour com fado vadio. É um destino traçado que em vez de xailes ostenta colares de pérolas. É um exigente conjunto de regras auto-imposto por uma classe que precisamente fez história ditando leis e mandamentos sobre todos os outros. É um paradoxo, um “catch 22”, a mais longa das séries que deixa os espectadores sucessivamente a fazer a pergunta: será que esta vai ser a última temporada?
Até ver, estamos bem longe dos capítulos finais. Sobretudo porque as outras personagens, os co-protagonistas dos episódios — os súbditos — vão querendo que tudo se mantenha. E enquanto assim for, o fascínio, a interrogação e a schadenfreude vão continuar.
A comédia "Santo António: O Casamenteiro de Lisboa", de Ruben Alves, o francês "Filho de Ninguém" e o sul-coreano "Hope", de Na Hong-jin, são as escolhas de Eurico de Barros esta semana.