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Sunday, October 11, 2026

Lula não conseguiu entregar o que prometeu, diz marqueteiro que derrotou aliados do PT no Nordeste

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O marqueteiro Igor Paulin avalia que a perda de votos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Nordeste está relacionada à frustração de eleitores com promessas de campanha e à percepção de que o governo não melhorou suas condições de vida. Em entrevista à EXAME, ele afirma que o desafio do presidente vai além da comunicação e aponta a abstenção, o desgaste político e a polarização como fatores relevantes na disputa com Flávio Bolsonaro.

A frustração de eleitores com promessas não cumpridas e a percepção de que os resultados do governo não chegaram ao cotidiano da população ajudam a explicar a perda de votos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Nordeste, segundo o marqueteiro Igor Paulin.

Para o estrategista político que comandou as campanhas vitoriosas de Raquel Lyra em Pernambuco e JHC em Alagoas, o principal problema do presidente não está apenas na comunicação, mas na distância entre a imagem que o governo tenta transmitir e a avaliação que os eleitores fazem de suas condições de vida.

Nos dois estados, os candidatos derrotados são aliados apoiados pelo presidente Lula, João Campos (PSB) e Renan Filho (MDB).

Em entrevista à EXAME, Paulin afirmou que, apesar dos indicadores positivos apresentados pelo governo na economia, parte da população continua enfrentando dificuldades financeiras, endividamento e problemas nos serviços públicos. Na avaliação dele, esse cenário contribuiu para o desgaste do presidente, mesmo em uma região historicamente favorável ao PT.

"Tem muito mais a ver, pelo que a gente vê em pesquisa, com um cansaço, uma frustração de não ter visto as promessas da campanha se realizarem. O governo não chega de fato à vida das pessoas e nem apresenta algo novo", afirmou.

O marqueteiro também aponta a abstenção como um dos fatores que precisam ser considerados na análise do desempenho eleitoral de Lula. Segundo ele, além dos eleitores que deixaram de comparecer às urnas, houve aqueles que participaram da votação, mas optaram pelo adversário do presidente.

"Embora apresente bons números na economia, o eleitor não tem essa sensação de que a vida está melhor. O eleitor está endividado, os custos estão altos, o serviço público é ruim, as pessoas têm medo da violência, a saúde não funciona", diz.

Para Paulin, a dificuldade do governo em transformar seus resultados em apoio eleitoral está relacionada à percepção dos próprios eleitores sobre a administração federal.

"Então, acho que, antes de ser uma questão só de comunicação, é também uma questão de desalinhamento do que a imagem que o governo quer vender e da imagem que as pessoas têm do governo, né? Não veem essa chegada do governo na vida delas."

Abstenção e desgaste de Lula no Nordeste

Na avaliação do marqueteiro, o Nordeste continua sendo uma região importante para o desempenho eleitoral de Lula, mas o presidente enfrenta dificuldades para manter o apoio conquistado em 2022.

Paulin considera que a redução da votação do petista deve ser analisada a partir de dois movimentos: o aumento da abstenção e a decisão de parte dos eleitores de votar em outro candidato.

"A primeira coisa para onde tem que se olhar aí é a abstenção. Também houve uma grande abstenção. Muita gente que não votou e muita gente que deixou de votar no Lula especificamente. Que foi votar, mas não votou no Lula, votou no adversário", afirma.

Além da avaliação sobre o desempenho do governo, Paulin identifica um desgaste associado à própria imagem de Lula e ao prolongamento da polarização política no país.

Segundo ele, esse cenário também ajuda a explicar a dificuldade das campanhas para conquistar a atenção de parte do eleitorado.

"É o próprio desgaste, cansaço que já existe em relação à própria figura do Lula, em relação ao próprio governo. Passa um pouco pelo cansaço com a própria polarização", afirma.

O estrategista ressalta, porém, que o desinteresse pelas mensagens eleitorais não significa necessariamente afastamento da política.

"E aí eu acho que o desinteresse não deve ser confundido com apatia. As pessoas estão, assim, desinteressadas na mensagem de campanha, desinteressadas na comunicação, mas não tão apáticas, não tão desconectadas da política. É que elas já tomaram a decisão delas e não estão querendo muito discutir, nem querer ouvir muitos argumentos contrários", diz.

O desafio da comunicação de Lula no segundo turno

Para Paulin, a campanha de Lula enfrenta um desafio que envolve não apenas convencer eleitores, mas recuperar o diálogo com pessoas que demonstram resistência às mensagens políticas.

Na avaliação dele, o presidente precisa alcançar tanto aqueles que deixaram de votar quanto os que estão insatisfeitos com o governo e não demonstram disposição para reconsiderar suas escolhas.

"Então, acho que o desafio de comunicação do governo Lula hoje é muito grande porque, saindo atrás do primeiro turno, é necessário primeiro reduzir a abstenção, tentar falar com esse voto que foi perdido e com o eleitor que não está a fim de escutar muita coisa, que está arredio, está cético, que não está comprando muito a conversa do político e da política, principalmente. E isso se acentua no eleitor indeciso", diz.

O marqueteiro considera que o tempo disponível para reverter esse cenário é limitado e que o desafio do presidente é maior do que o enfrentado por Flávio Bolsonaro.

Apesar dessa avaliação, o marqueteiro ponderou que o resultado da disputa permanece em aberto.

"Acho que tem um desafio gigante aí, pouco tempo, né, para contorná-lo", afirmou. "Mas eu não acho que é uma campanha já resolvida."

Rejeição dos candidatos pode definir a disputa, avalia marqueteiro

Além das dificuldades enfrentadas por Lula, Paulin considera que a rejeição aos dois lados é um dos elementos centrais da disputa eleitoral.

Para ele, a percepção mais recente dos eleitores sobre o governo federal pode ter peso relevante na avaliação dos candidatos.

"Do outro lado também tem uma rejeição enorme, Nessa disputa de rejeições, a coisa se define no detalhe e na percepção mais recente", diz.

O estrategista avalia que existe uma diferença importante entre a memória que os eleitores têm da atual administração e a lembrança do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro.

"A memória das pessoas sobre o governo Lula hoje é muito mais recente do que a memória do que foi o governo Bolsonaro, que levou, inclusive, à derrota do Jair contra Lula", afirma.

Estratégia de campanha permanente para Lyra e JHC

A principal estratégia adotada pelo marqueteiro Igor Paulin nas campanhas de Raquel Lyra, em Pernambuco, e JHC, em Alagoas, foi a chamada campanha permanente. O conceito, desenvolvido nos Estados Unidos e utilizado desde o governo de Ronald Reagan, consiste em aplicar técnicas de comunicação eleitoral durante toda a gestão, e não apenas nos meses que antecedem a votação.

"É basicamente o seguinte: você usar todas as ferramentas, todo o instrumental que você tem em uma campanha política para gerir a imagem de um gestor, de um governante", dizPaulin.

Segundo o marqueteiro, o objetivo é construir a imagem do governante de forma contínua, associando ações e entregas da administração pública à vida cotidiana dos eleitores. Dessa forma, quando começa a disputa eleitoral, o candidato já possui uma narrativa consolidada sobre sua gestão.

Em Pernambuco, a estratégia envolveu uma campanha de prestação de contas, com o slogan "Arrumou, cuidou, acelerou", e mudanças na comunicação de Raquel Lyra para destacar seu lado pessoal e aproximá-la dos eleitores. Em Alagoas, a campanha de JHC utilizou a avaliação de sua administração em Maceió como principal referência para apresentar sua candidatura ao governo estadual.

Outro elemento central foi a regionalização das disputas. Segundo o marqueteiro, as duas campanhas procuraram concentrar o debate nos problemas e nas demandas estaduais, evitando transformar as eleições em um confronto nacional entre apoiadores de Lula e de Bolsonaro.

"O desafio das duas campanhas era transformar as campanhas de Raquel e de JHC em campanhas regionais. Tudo que a gente fez, o esforço de comunicação foi regionalizar a comunicação, não fazer a disputa estadual colar na nacional, porque senão a gente sabia que seria muito mais difícil", afirma Paulin.

Para o marqueteiro, essa combinação de comunicação contínua, prestação de contas e valorização de temas locais foi fundamental para a construção das candidaturas.

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