Análise: Flamengo fica perto de desastre e reaprende que favoritismo só se confirma em campo

O Flamengo está nas semifinais da Conmebol Libertadores, mas os aplausos serão contidos desta vez. Principalmente, porque o time esteve próximo de um desastre no Maracanã. O empate por 1 a 1 com o Independiente del Valle, nesta quinta-feira, garantiu a classificação, mas a vaga veio em um jogo no qual a equipe rubro-negra pareceu subestimar o desafio que tinha pela frente. E fez muita força — muita mesmo — para se complicar.
Depois de vencer por 2 a 0 na altitude de Quito, era fácil acreditar que o Del Valle seria uma presa fácil no Rio de Janeiro. Foi um erro grave, que levou o Flamengo a uma situação impensável: chegou a estar perdendo por 1 a 0, com um jogador a menos após a expulsão de Jorginho, e torcendo para que o VAR confirmasse o impedimento no segundo gol equatoriano. Não fosse a falha bisonha de Quintana no gol de Arrascaeta, os minutos finais no Maracanã teriam sido de sufoco.
A classificação deixa um recado claro: a Libertadores não aceita desaforo, e mata-matas não são decididos antes do apito final. O Flamengo avançou porque é, sim, o melhor time do continente e conseguiu ser impecável em Quito. Mas, se dependesse apenas do que foi apresentado no Maracanã, o Estudiantes poderia ter outro adversário na semifinal. Fica o aprendizado, reforçado por Leonardo Jardim depois da partida.
O grupo está de parabéns, mas temos que chamar a atenção que só somos favoritos dentro de campo, não fora dele.
Arrascaeta marca em Flamengo x Ind. Del Valle — Foto: André Durão/ge
Mas o que levou o Flamengo a viver uma noite tão atípica? Uma combinação de fatores explica uma atuação ruim em praticamente todos os aspectos. Tecnicamente, nomes como Ayrton Lucas, Pulgar, Carrascal e Lucas Paquetá puxaram a fila de um desempenho coletivo abaixo do esperado. Taticamente, o gol cedo favoreceu a estratégia de contra-ataques do Del Valle, que também levou vantagem no aspecto mental ao transformar o Maracanã em um caldeirão. O time rubro-negro chegou a ser vaiado no intervalo.
Mas a pior sensação foi a de que o Flamengo subestimou o perigo que tinha pela frente. A vantagem construída em Quito era confortável, mas acabou fazendo o time encarar a partida com certo desinteresse, sobretudo no primeiro tempo. Curiosamente, a chave só virou depois da expulsão Jorginho, que fez o torcedor entender a dimensão do perigo iminente: as vaias deram lugar ao apoio. O caos acabou unindo a arquibancada.
Arrascaeta em Flamengo x del Valle — Foto: Andre Durao
O cartão vermelho de Jorginho, inclusive, merece uma discussão maior. É possível debater se o volante realmente merecia o segundo cartão amarelo, mas um jogador de sua experiência não pode dar margem para esse tipo de interpretação. Pulgar também ficou a centímetros de ser expulso. Manter a cabeça no lugar será fundamental contra o Estudiantes.
De positivo, é preciso elogiar a postura do Flamengo na hora de se defender. Se antes a reclamação era pela falta de concentração, o que foi visto nos minutos finais foi uma equipe que mostrou brio para suportar a pressão equatoriana. O melhor momento rubro-negro no Maracanã não foi o gol bizarro marcado por Arrascaeta, foi o empenho tático para igualar as ações mesmo com um a menos.
Sobre o gol bizarro, um chutão despretensioso de Rossi ganhou altura, Quintana foi traído pelo quique da bola, e ela sobrou para Arrascaeta decidir mais uma vez. O uruguaio havia entrado no lugar de Paquetá e, novamente, foi decisivo para colocar o Flamengo na semifinal. Simbólico de certa forma.
A classificação veio com mais drama do que deveria, mas premiou um time que teve brio no seu pior momento — e fez por onde para ficar com a vaga. Faltam três jogos para que o sonho do pentacampeonato da Libertadores se realize. A expectativa é mais 90 minutos como os feitos no Equador se repitam; e os 90 minutos do Maracanã sejam esquecidos.
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