O cónego Jeremias e Torreciudad

O Cónego Jeremias segue com particular interesse o caso relativo ao Santuário de Nossa Senhora dos Anjos de Torreciudad, na diocese de Barbastro-Monzón.
– Qual a relação desta invocação mariana com o Opus Dei?
– Na diocese aragonesa de Barbastro há uma pequena ermida, junto à ruína de uma torre medieval, onde se venera Nossa Senhora dos Anjos de Torreciudad, a quem os pais de São Josemaria Escrivá, fundador do Opus Dei, recorreram, com êxito, quando este seu filho, então com dois anos de idade, estava em perigo de vida.
– Era, já então, um centro de grande devoção mariana local?
– Em meados do século passado, a ermida estava praticamente em ruínas, como se comprova pelas fotografias da época. Portanto, se não se tivesse feito o seu restauro, é provável que já não existisse a ermida e a imagem estivesse nalguma arrecadação, ou nalgum museu de arte sacra, como a imagem de Nossa Senhora de Zaidín, que foi retirada ao culto e se encontra no museu diocesano.
– Deve-se, então, a São Josemaria o culto a Nossa Senhora de Torreciudad?
– Não, mas foi com o fundador do Opus Dei que alcançou projecção mundial.
– Como promoveu São Josemaria esta devoção a Nossa Senhora?
– Dada a exiguidade da ermida, São Josemaria ofereceu à diocese a possibilidade de a restaurar e de construir, a poucos metros de distância, um templo e uma esplanada com capacidade para milhares de fiéis. Para este efeito, a diocese cedeu perpetuamente a ermida e a imagem de Nossa Senhora de Torreciudad, mantendo-se proprietária de ambas, mas correndo a cargo do Opus Dei o seu restauro, conservação e uso litúrgico. Todos os fiéis diocesanos, como qualquer outra pessoa, têm livre acesso à ermida, à imagem de Nossa Senhora e ao novo templo.
– Esse complexo sobrecarrega a diocese e o seu escasso e envelhecido clero?
– Não, porque o atendimento sacerdotal compete exclusivamente aos sacerdotes do Opus Dei, que também ajudam nas paróquias vizinhas. Torreciudad nunca representou nenhum gasto para a diocese, nem mais trabalho para o seu clero.
– Como surgiu esta polémica entre o Bispo de Barbastro-Monzón, D. Ángel Pérez Pueyo, e a prelatura do Opus Dei?
– Em 2020, o Opus Dei propôs à diocese de Barbastro a actualização da sua contribuição anual e a aprovação de Torreciudad como santuário diocesano. Depois de três anos de conversações inconclusivas, o Papa Francisco escreveu, a 13-7-2023, ao Bispo de Barbastro, dando-lhe o seu apoio: “De acordo. Não cedas!”. De acordo com quê?! Provavelmente com a substituição do então reitor de Torreciudad, do Opus Dei, pelo padre diocesano José Mairal, pároco de Bolturina-Ubiergo, que ocorreu quatro dias depois, a 17-7-2023, e que, segundo um diário madrileno de referência, foi “um movimento apoiado pelo Papa Francisco” (El País, 3-9-2026).
– Quando ocorreu a nomeação do Comissário Pontifício?
– A 9-10-24, Francisco nomeou o Arcebispo Alejandro Arellano, Decano do Tribunal da Rota Romana, como Comissário Plenipotenciário Pontifício, “num gesto que foi entendido como sendo de apoio ao Bispo de Barbastro.” (Idem). Quatro dias depois de tomar esta decisão, a 13-10-24, “o pontífice argentino escreveu uma segunda carta a Pérez Pueyo em que reafirmava a sua posição: ‘Ao nomear o Decano da Rota faço visível a minha intervenção directa nas actividades do Opus Dei aí.’ Também lhe confessou que, ‘ao propor-te um novo destino, procuro libertar-te de todas ‘as intrigas mafiosas’ que estão em andamento. Assim se vê claramente que a minha intervenção é total’.”(Idem).
– Que “intrigas mafiosas” eram essas?
– Como fizeram crer ao Papa que o Bispo de Barbastro queria ser transferido para outra diocese, Francisco autorizou a sua mudança para Ciudad Real, o que não se verificou porque, entretanto, o Papa soube, pelo próprio Pérez Pueyo, que era sua vontade ficar em Barbastro, como de facto aconteceu.
– Como reagiu o Bispo de Barbastro à nomeação do Comissário Pontifício?
– Foi a seu pedido e para o favorecer que Francisco o nomeou e, por isso, inicialmente, declarou “absoluta confiança nas resoluções da Santa Sé”, mas depois deu o dito por não dito e agora ameaça demitir-se se a solução não for do seu agrado.
– Que efeito teve a nomeação episcopal de um novo reitor para Torreciudad?
– A prelatura contestou a nomeação, recorrendo à Santa Sé. Torreciudad não é um templo da diocese, mas do Opus Dei, e o seu atendimento sacerdotal é feito exclusivamente pelos sacerdotes da prelatura, à qual compete a nomeação do reitor e demais capelães. Durante 50 anos foi sempre assim, com o conhecimento e consentimento dos Bispos diocesanos, até porque a diocese não tem clero disponível para o efeito: por ano, passam por Torreciudad cerca de 200 mil fiéis.
– E a questão económica?
– A manutenção do novo templo, da ermida e demais dependências, bem como o culto a Nossa Senhora de Torreciudad só é possível graças a um patronato e a uma fundação, que cobrem o seu recorrente défice e que são proprietários dos edifícios, com excepção da ermida. A diocese não teria capacidade para assumir este encargo e, por isso, abdicou desta sua inicial pretensão.
– A diocese não exigiu também que lhe fosse devolvida uma antiga pia baptismal da Sé de Barbastro, que está na sede do Opus Dei, em Roma?
– Com a República e a Guerra Civil espanhola, a catedral de Barbastro foi, como tantas outras igrejas em Espanha, saqueada e a sua pia baptismal destruída. Depois de construída uma nova pia, os muito deteriorados restos da antiga, que tinham sido atirados ao rio, foram oferecidos a São Josemaria, que nela tinha sido baptizado e que a restaurou. Foi a diocese que, através do seu bispo e cónegos, fez esta oferta que, obviamente, nada tem a ver com Torreciudad.
– A 31-8-2026, no seu último comunicado, o Bispo desistiu das suas primitivas pretensões ao governo e controlo económico do santuário e propôs que Torreciudad ficasse na dependência directa da Santa Sé. Mas afirmou que a imagem de Nossa Senhora de Torreciudad foi abusivamente retirada da ermida, a ‘sua casa’ …
– É uma insinuação muito injusta, infeliz e grave, a que o Opus Dei respondeu de forma contundente, pois “uma divergência legal não pode ser transformada numa acusação ofensiva infundada”, como se tivesse ocorrido “um roubo, uma usurpação ou uma retenção ilegal”. Apresenta-se esta exigência como se fosse um imperioso dever de consciência, mas as iniciais reivindicações diziam sobretudo respeito ao governo do complexo pastoral e à questão económica.
– Está documentada a cedência da ermida e da imagem?
– Foi por escritura pública de 24-9-1962, entre a diocese e o Opus Dei, que ficou acordado pelas partes que a propriedade da imagem e da ermida permaneceria diocesana, mas também que a diocese cedia o seu domínio útil perpétuo ao Opus Dei. Foi o então Bispo de Barbastro, D. Jaime Flores, quem autorizou, em 1964 e 1970, também por escritura notarial, o restauro da imagem de Nossa Senhora.
– O actual Bispo de Barbastro contesta a transferência da imagem …
– No acordo de 8-9-1966, entre D. Jaime Flores e o Opus Dei, estabeleceu-se que a ermida e o novo templo constituiriam uma unidade, “um único recinto convenientemente vedado.” Portanto, ao contrário do que recentemente se fez crer, a imagem de Nossa Senhora dos Anjos esteve desde sempre e continua a estar na ‘sua casa’, que desde o início foi, e também agora é, Torreciudad. Na ermida, ou a presidir o retábulo do novo templo, onde está desde há 50 anos, a imagem de Nossa Senhora de Torreciudad sempre esteve, e está, afinal, no mesmo lugar, que é, portanto, a ‘sua casa’.
– Mas não seria melhor que a imagem estivesse, de facto, na ermida?!
– Na ermida que ameaçava ruína e onde só cabem umas dezenas de fiéis?! Graças a São Josemaria e a milhares de devotos, a imagem da Senhora de Torreciudad, foi, finalmente, recebida numa digna morada. Não deveria ser esta esplêndida iniciativa apostólica, que já deu tantos frutos espirituais, motivo de alegria e de acção de graças para toda a Igreja, nomeadamente para a diocese de Barbastro, que é a mais directamente beneficiada?!
– Qual será, então, a solução?!
– Hoje mesmo, o Comissário Pontifício presidirá, em Torreciudad, à 34ª Jornada Mariana da Família. Durante meio século, houve um excelente entendimento e cooperação pastoral entre a diocese de Barbastro-Monzón e a prelatura do Opus Dei. Há agora a esperança de que, em breve, se alcance uma solução justa, que promova o culto a Nossa Senhora dos Anjos de Torreciudad e a pastoral a ele associada, para o bem das almas, a unidade da Igreja, a honra da Maria e a glória de Deus.
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