O que Sartre e a neurociência ensinam sobre liberdade na era dos algoritmos
RESUMO +
A inteligência artificial pode revelar padrões de comportamento, mas não substitui a decisão de mudar. A filosofia de Jean-Paul Sartre e a neuroplasticidade ajudam a discutir a liberdade de escolha e a construção da identidade.
MindFlow - por Cecilia Ivanisk, fundadora da Learn to Fly.
Vivemos talvez o momento mais polarizado da nossa história recente, e ele esconde uma reflexão filosófica muito antiga de Jean-Paul Sartre: "a existência precede a essência".
Traduzindo para a vida real, ela significa que você não nasce com uma essência pronta esperando ser descoberta. Primeiro você existe e, só depois, através das escolhas que faz, vai se tornando quem é.
Não há um "eu verdadeiro" enterrado lá no fundo à espera de ser descoberto. Há um "eu" sendo construído, decisão após decisão, inclusive agora.
Agora repare no que acontece com as nossas escolhas hoje.
Boa parte das nossas posições não nasce de uma reflexão lenta e própria: chega pronta, embalada e entregue por algoritmos que já sabem, antes de nós, de que lado tendemos a ficar.
As redes aprendem nossas inclinações pelo que curtimos, pausamos e compartilhamos, e então nos devolvem mais do mesmo, num ciclo que confirma quem já éramos e estreita, pouco a pouco, aquilo que conseguimos imaginar para nós mesmos.
Nos posicionamos cada vez mais, e cada vez menos escolhemos de fato. Reagimos a um retrato que a tecnologia traçou de nós e o confundimos com convicção.
Mas essa mesma capacidade de ler padrões pode jogar a nosso favor.
A Inteligência Artificial consegue nos devolver, organizado, aquilo que vivemos de forma dispersa: os temas que se repetem, os valores que insistem em aparecer, as contradições que não enxergamos sozinhos.
É como ganhar um espelho capaz de mostrar o que estava bem na nossa frente, mas fora do nosso campo de visão. Mas esse retrato é um ponto de partida, não um ponto final.
A IA é excelente em revelar quem você tem sido. Quem você vai ser, porém, é outra história, e essa só você escreve.
A filosofia de Sartre olha para frente e diz: "nada do que fiz me obriga a continuar sendo isso", uma possibilidade em aberto, a construção do eu futuro que se faz diariamente nas nossas escolhas presentes.
E quando você se posiciona, quando toma uma decisão difícil e banca, você está provando que as decisões ainda são suas, em um mundo desenhado para antecipar o que vamos ser, quer dizer, o que vamos continuar sendo.
O que a neurociência complica (e o que ela liberta)
Seria fácil parar por aqui, com a filosofia vencendo a máquina. Mas a neurociência entra para bagunçar os dois lados.
Experimentos clássicos de Benjamin Libet mostraram que o cérebro inicia uma ação frações de segundo antes de termos consciência de que decidimos. Ou seja: em algum nível, algo "escolhe" antes do "você" que acha que escolheu.
Some isso à IA que prevê seus próximos passos e surge uma pergunta vertiginosa: onde, afinal, mora a sua liberdade?
A resposta mais interessante também vem da neurociência, e é libertadora. O cérebro é, sim, uma máquina de prever e economizar energia, que tende a repetir os caminhos já trilhados. Por isso ele parece tão previsível.
Mas ele também é plástico. A neuroplasticidade mostra que formamos novas conexões em qualquer fase da vida, que padrões consolidados podem ser remodelados com esforço e repetição.
Temos uma frase clássica na Learn To Fly: nossa personalidade não é nossa sentença. É nossa tendência. E tendência é justamente aquilo que uma escolha consciente pode contrariar.
A IA pode nos mostrar a tendência com uma nitidez inédita; mas o momento exato em que você decide ir contra ela, para se tornar quem quer ser, continua sendo só seu.
Se posicionar, muitas vezes, é escolher contra a própria preferência imediata em nome de um valor. É abrir mão do confortável agora por algo em que você acredita.
Escolher outro caminho, carregar o peso de ter escolhido e sustentar isso diante do mundo continua sendo inteiramente seu.
E talvez seja essa a notícia mais libertadora de todas: a tecnologia pode iluminar o caminho, mas mudar é a única coisa que nenhum algoritmo consegue fazer por você.
Reconhecer o padrão é o começo, e hoje temos ferramentas poderosas para reconhecê-lo. Decidir contrariá-lo, quando ele não te serve mais, é onde mora a verdadeira liberdade.
Entre confirmar o retrato que já esperavam de você e reescrevê-lo a cada decisão, eu prefiro, sempre, ser uma metamorfose ambulante.
'Perguntas frequentes'
O que significa 'a existência precede a essência' para Sartre? +
Para Jean-Paul Sartre, a pessoa não nasce com uma essência pronta: primeiro existe e, pelas escolhas, constrói quem é. Nessa perspectiva, as decisões passadas não obrigam a pessoa a permanecer igual.
Como os algoritmos influenciam nossas escolhas? +
Os algoritmos identificam inclinações a partir de curtidas, pausas e compartilhamentos e devolvem conteúdos semelhantes. Esse ciclo reforça posições anteriores e pode limitar as possibilidades que a pessoa considera para si.
Como a inteligência artificial pode ajudar no autoconhecimento? +
A inteligência artificial pode organizar temas recorrentes, valores e contradições que a pessoa não percebe sozinha. Esse retrato ajuda a reconhecer padrões, mas não determina quem a pessoa vai se tornar.
O que é neuroplasticidade e como ela permite mudar padrões? +
A neuroplasticidade é a capacidade do cérebro de formar novas conexões e remodelar padrões ao longo da vida. Padrões consolidados podem ser modificados com esforço e repetição.
Por que reconhecer padrões não basta para mudar? +
Reconhecer padrões é apenas o ponto de partida; mudar exige decidir contrariá-los quando já não servem. A tecnologia pode ajudar a identificar tendências, mas assumir e sustentar uma escolha continua sendo uma responsabilidade individual.
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