O Papa Leão em Paris: porque vieram tantos ao seu encontro?

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O Papa Leão XIV está desde sexta-feira em França. Passou dois dias em Paris antes de seguir para Lourdes. Hoje visita Metz, já perto da fronteira alemã. É uma viagem de grande significado depois de uma outra a Espanha, uma visita que em Paris como em Madrid atraiu multidões imensas, maiores até do que se esperava. O Papa Francisco não tinha ido nunca à França numa visita oficial, muito menos a Paris. O Papa Leão escolheu agora dois grandes países europeus com uma longa história católica para duas das suas primeiras viagens. Espera-se também que possa vir a Portugal no ano que vem para os 110 anos das aparições de Fátima. No Contracorrente de hoje vamos procurar perceber o significado destas visitas e daquilo que Leão XIV disse aos franceses. Bom dia, Zé Manel. Estavas à espera de tanta gente nas ruas de Paris?
De alguma forma é uma surpresa. Uma das coisas interessantes, há várias coisas interessantes nesta viagem, é que estamos a falar de um país onde nas últimas décadas havia sinais fortíssimos de erosão e perda de influência da Igreja Católica e mesmo de qualquer religião. Os números são muito significativos. Há 60, 70 anos, 85% dos franceses identificavam-se como católicos e agora, depende um pouco da forma como se faz a medição nas sondagens, que às vezes não é rigoroso, entre 30% e 45%. Há uma quebra para sensivelmente metade em termos de percentagem da população. E quando olhamos, por exemplo, para a evolução desde que João Paulo II tinha visitado Lourdes, que foi em 2004, há 22 anos, desde essa altura, o número, por exemplo, de paróquias caiu para metade, 22 mil para cerca de 11 mil. O número de padres desses anos era 19 mil, agora são menos de metade também, 9 mil. E podia continuar a dar números por adiante, há alguns que ainda caíram mais. Por exemplo, o número de mulheres religiosas caiu para um terço. No entanto, nos últimos anos aconteceu algo a que a Igreja tem dado muita atenção e que tem sido objeto de muito noticiário, que é quase de repente, sobretudo no pós-COVID, o número de batizados, isto é, de pessoas que pedem para ser batizadas, praticamente quadriplicou. Portanto, de pouco mais de 4 mil por ano para cerca de 20 mil. Estamos a falar de uma subida quintuplicou. Poderá não compensar a redução do número de batismos na primeira idade, logo após o nascimento, mas é significativo e foi um dos aspetos destacados nesta visita, porque o Papa reuniu-se precisamente com recém-batizados. Mas mais do que isso, talvez aquilo que é mais impressionante foi a ação popular. Primeiro, numa cerimônia no Stade de France, que tem um significado muito especial, porque o Stade de France fica em Saint-Denis. Saint-Denis é, de alguma forma, um berço do catolicismo francês, mas hoje é um departamento com maioria muçulmana, porque é uma zona de grande concentração de imigrantes. No entanto, naquele dia, à noite, no Stade de France, foi de alguma forma diferente e foi interessante também ver a forma como se evocou o passado católico de França. A França foi um país que durante boa parte, não só da Idade Média, mas até da própria Idade Moderna, era vista como o primeiro filho, o filho primogênito do catolicismo. Falaremos também um pouco disso, da influência que foi tendo a relação, que nem sempre foi pacífica, dos papas com a França, bastante mais complicada que a nossa, por exemplo, ou mesmo que a espanhola. E por fim, as prioridades do Papa Leão. Não apenas aquilo que ele disse nos discursos, mas também esta vontade de ir a grandes países católicos. Não ir sobretudo à periferia. Parece ser uma mudança ou pelo menos uma evolução em relação ao Papa Francisco. O Papa Francisco não tinha visitado a Espanha, como nós na altura já fizemos aqui um Contracorrente sobre isso, recordámos, e também relativamente a França, tinha estado em França, mas não visitado França. Ele tinha quase que feito questão de o sublinhar, porque ele tinha estado em Marselha. Marselha é uma cidade francesa, mas ele sublinhou que ia à Marselha, não ia à França. Portanto, isto também era, de alguma forma, retrato de algumas tensões que tinham existido. As relações agora da igreja francesa com o Vaticano são bem diferentes. O atual líder da igreja francesa, aliás, é um amigo pessoal. Falou-se dele até como possível papável na última eleição, mas independentemente disso, é um amigo pessoal de Leão XIV. E Leão XIV é uma história, de resto, muito bonita. Leão XIV tem raízes francesas. A sua avó vinha da Normandia e ele nasceu perto da fronteira do Canadá, nos Estados Unidos, num abrigo para mães que têm filhos fora do casamento. Ele é neto de uma francesa e o seu próprio apelido, Prevost, é um apelido de alguma forma criado para suprir essa situação de nascimento menos comum, sobretudo nessa época. Vamos falar um pouco disso tudo e também das mensagens que ele deixou sobre inteligência artificial e sobre os temas que são sempre polêmicos e que ele não deixou de os falar. A França aprovou há poucas semanas uma lei sobre a eutanásia e ele referiu-se naturalmente a isso. Vamos falar um pouco disso com a ajuda de quem está em Paris e também de quem acompanha sempre estes temas aqui em Lisboa.
Até já, Zé Manel.
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