Não é só choro: há quem esteja sorrindo entre os aliados de Flávio

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Chora, que a cama é quente.
Mas também há sorrisos de canto de boca entre os bolsonaristas.
Já falo adiante sobre eles. E antecipo que eles somam quatro em uma das mãos.
Quatro anos, é bom que se diga.
Na boca de Flávio, a frase foi infeliz e preconceituosa, o que deve ter lhe tirado alguns milhares de votos.
O salto alto também atrapalhou. Principalmente nos dias subsequentes ao primeiro turno.
Ele trocou um terreno plano, que dava direto na fita da vitória, por um caminho cheio de pedregulhos, em que um scarpin te joga no chão.
Flávio se machucou.
E não pensem que virão passar Merthiolate e soprar os arranhões.
Rei morto, rei posto.
No caso, príncipe.
Vem aí a sucessão.
E é nesse contexto de "Game of Thrones" que trago os sorrisos.
Reservados, é lógico.
Mas incontidos.
Bolsonaro, Michelle sabe que, com Jair preso —agora sem perspectiva de liberdade, debilitado fisicamente— e Flávio humilhado, o Trono de Ferro está vago.
Como naquela brincadeira de criança em que se senta no lugar vago quando a música para de tocar, Michelle sabe que tudo tem sua hora.
Não a menosprezem.
Melhor que Janja ela é. E dobra o marido tal qual.
Tem liderança entre os evangélicos.
É senadora eleita, em um mandato em que o Senado vai parecer campo minado, tão cheio está de pautas-bomba.
Entre elas, uma que foi burramente ignorada por Flávio no segundo turno: a do impeachment de ministros do STF.
A ideia está na cabeça até de quem votou em Lula.
Alexandre de Moraes é a Cersei Lannister da série real exibida nos plenários de Brasília. A vilã da série que conta com a unanimidade.
Se tivesse que apostar em um só impedimento para salvar a corte e a toga de outros personagens do mal, faria minha bet em Moraes.
Boa bandeira para Michelle.
Um bandeirão, daqueles desfraldados pela Gaviões da Fiel.
É preciso ainda entender se ela aguenta o peso e quem vai estender o estandarte com ela.
Precisará de aliados desinteressados.
Digo desinteressados porque, quando um parlamentar costuma ter muitos interesses, mata a mãe para ir ao baile dos órfãos.
Um aliado interessante seria o governador Tarcísio de Freitas.
Ele só anda rindo trancado no espelho do banheiro e, mesmo assim, de luz apagada.
Pode-se até dizer que errou a conta na tal Simulação de Monte Carlo, publicada no X do governador no dia da eleição.
Tarcísio apostou numa diferença de 6 pontos pró-Flávio. Errou por 9.
Se fosse uma ponte projetada pelo engenheiro, tinha desabado.
Tarcísio não desmorona. Destruiu Haddad em São Paulo. E, no segundo turno, o estado teria elegido um candidato de direita.
Ele tem uma estrada impecavelmente asfaltada pela frente, com entrega de tanta obra que vai faltar mão de obra.
A partir de agora, mãos à obra, governador.
Primeiro, cumprir as promessas, assumir a liderança dos mandatários de direita e ocupar o espaço que já era seu e lhe foi surrupiado pelo Messias.
Porém, cautela e canja de galinha não fazem mal a ninguém.
Tarcísio foi cauteloso até demais.
Melhor um segundo mandato no estado mais importante do país do que alguma chance de derrota para um adversário encrenca como Lula.
Lula, por sua vez, já pensa na aposentadoria sem ter herdeiros.
Tem quatro anos para criar um.
Do outro lado, Tarcísio sai na frente.
E, se for uma chapa Tarcísio com Michelle de vice, prestem atenção.
É lógico que haverá desgastes. Mas Lula também terá.
Quatro anos é tempo demais no país de Vorcaro.
Ainda podem rolar muitas pedras, Lulinhas, Dinos, resorts, relógios e orgias.
Nada pegou Tarcísio.
Se os Bolsonaro tivessem enxergado isso, poderiam ter negociado à la Valdemar e se saído bem.
Estariam comemorando.
Agora a família tem um ex-senador sem mandato, um autoexilado condenado a nunca mais voltar, um pai preso.
E uma madrasta boa, toda serelepe.
O poder alimenta.
Do alto dos seus 81 anos, Lula está cheio de projetos —e a carteira vazia.
À direita, a disputa pelo espólio talvez já tenha começado.
Antes mesmo de Flávio terminar de chorar.
Opinião
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