É a estupidez, estúpido

No Verão de 2008, a revista “Atlantic” trazia para a capa o título de um artigo: “O Google Está a Tornar-nos Estúpidos?” Para evitar suspenses desnecessários, a resposta é “sim”. Quanto ao artigo, escrito pelo jornalista Nicholas Carr, tinha como subtítulo “O que a Internet Faz aos Nossos Cérebros” e usava o Google enquanto símbolo genérico da chamada “era digital”. As conclusões, que aqui resumo imenso para que não escapem sequer aos viciados no TikTok, previam que o uso constante da Internet provocaria alterações neurológicas, com consequências drásticas nas capacidades de atenção e concentração. Ou seja, às cabecinhas crescentemente dependentes da pesquisa rápida e dos saltinhos entre páginas “web”, cada vez seria mais difícil ler textos longos e, Deus as livre, interpretá-los.
Grosso modo, Carr acertou em cheio, e fê-lo antes da omnipresença do “online” e da disseminação do “smartphone” e do advento das “redes sociais” e do tempo em que uma “storie”, uma fotografia vertical acompanhada de sanfona e frase tonta, constitui o exacto oposto de uma história. Em 2008, ainda não havia casais mudos à mesa do restaurante, entretidos a contemplar as maravilhas embutidas nas entranhas do iPhone. Ou criancinhas, frequentemente com 50 anos, com inquestionável talento para, horas a fio, deslizarem o polegar no ecrã cerca de 0,6 segundos após o início de um vídeo de 3. Ou os portentos do convívio social, avessos a conversas arcaicas mas que são a alma da festa nos 86 “grupos” do WhatsApp onde trocam centenas de mensagens por minuto. Se possível, e é possível, muitos usam umas rolhas enfiadas nas orelhas para ouvir nem ouso imaginar o quê e, sobretudo, evitar que a realidade lhes perturbe a rotina. Confirma-se: a Internet tornou-nos estúpidos.
Há indicadores discutivelmente fiáveis que provam o inexorável avanço da estupidez. Um deles são os testes de QI, cujas pontuações aumentaram durante um século e que nas últimas duas ou três décadas desataram a afocinhar, principalmente nos insignificantes sectores do raciocínio e da abstracção. Outro é o PISA, o estudo comparativo promovido pela OCDE aos alunos de 15 anos e que sai de 3 em 3. Há dias saiu um, e os resultados imitam a torre que não lhe deu o nome. Nos critérios avaliados (leitura, matemática e ciências), o tombo é brutal e, à semelhança dos testes de QI, principalmente brutal na Europa, menos brutal nos EUA e nada brutal na Ásia Oriental. E, preparem-se porque por esta não esperavam, em leitura e matemática Portugal tombou mais que o resto.
Dado que somos um país especializado em escalpelizar as desgraças a posteriori, a fim de parecermos preparados para a desgraça que fatalmente se seguirá, meio mundo lançou causas sortidas para justificar a vergonha do PISA caseiro. São os imigrantes. Foi a Covid. É o PS. É a fuga dos professores. É a invasão das “aprendizagens essenciais”. Quase todos acertaram um bocadinho, quase todos falharam uns bons bocados.
É verdade que a imigração recente influencia negativamente as notas do PISA, embora, a julgar pelos dados disponíveis, o respectivo peso seja ligeiro face à queda total. E é verdade que a Covid, ou a alucinada decisão de fechar os petizes em casa a pretexto de uma doença que estatisticamente não os afectava, ajudou à derrocada: em geral os países – e os estados dos EUA – que menos prolongaram a loucura das escolas fechadas menos caíram no PISA, ou não caíram de todo. Sucede que a Covid não explica uma tendência que remonta a 2012 e 2015 e desde aí prossegue sem parança. O que talvez explique são as gerações amamentadas a telemóvel e restantes pechisbeques digitais, e a maneira como os sistemas de ensino das diferentes geografias resistiram, ou cederam, aos pechisbeques.
Para continuar no exemplo português, aqui o ensino não se limitou a tolerar a moderníssima “digitalização”: a partir de 2015, o ministério, em sábias mãos socialistas, decidiu que não bastava às criancinhas passarem dois terços da vida a fitar ecrãs e despejou ecrãs no terço que faltava. De repente, mesmo que com origem num “relativismo” velho, os “conhecimentos tradicionais”, leia-se o conhecimento, foram desprezados em prol de “novas valências”, leia-se ideologia e lero-lero, regadas com baldes generosos de “informática”, que é o “futuro” (não sabiam?). Em vez de elevar os alunos à escola, afinal a única utilidade da dita, a escola desceu aos alunos, já de si, excepções sempre à parte, incapazes de uma vaga noção sobre se Pitágoras era um filósofo e matemático ou a cidade natal de uma senhora chamada Teorema. Ou sobre se Salazar governou: a) No século XX; b) No século XII; c) No século que vi num short “bué” cringe e agora não me lembro; d) O que é salazar? Sob o PS, a escola abdicou dos derradeiros resíduos de exigência e adaptou-se com entusiasmo à estupidez.
Simplificando, que a época não está para complexidades, suspeito que é por aí que espreitam as diferenças nos resultados do PISA em Portugal e na OCDE inteira, na forma como certas escolas de certos e raros lugares teimaram em continuar a ensinar e a vasta maioria das demais optaram por se transformar em espaços de ATL, curvadas ante as vistosas luzinhas do “progresso” e o mínimo denominador comum. Pelo meio, haverá incontáveis variações, e a prazo nenhuma deverá escapar à escolha entre a “inclusão” [sic] e o rigor. Ou a escola tenta salvar todos e acaba a não salvar ninguém, incluindo a si própria, ou a escola ignora o processo de ignorância em curso, resgata os que são resgatáveis e, “elitista” e caluniada e parcial, sobrevive.
Um epílogo. O PISA também pede aos meninos e às meninas que falem de emoções e sentimentos. Aqui Portugal está em grande por comparação com a média europeia: os nossos alunos não sofrem tanto “bullying”, sentem segurança acrescida, fazem amigos sem problema e são solidários. Há quem aplauda o facto de a escola ser “mais humana e acolhedora”. Não sei se a inteligência artificial destruirá a humanidade, conforme alguns prometem. Mas é evidente que a estupidez natural está bastante empenhada nisso.
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