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Tuesday, September 8, 2026

Estudiosos deveriam ter previsto a crise democrática atual, diz cientista política americana

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A cientista política americana Sheri Berman, 60, uma das maiores referências mundiais no estudo da democracia, prepara um novo livro previsto para o próximo ano. Nele, analisa o que aconteceu para que, a partir da virada do século 21, o otimismo com o sistema tenha dado lugar a uma crise que ameaça democracias mesmo em lugares até então considerados estáveis.

Na edição de abril da revista acadêmica Journal of Democracy, Berman afirma que a crise atual deveria ter sido prevista por seus pares, considerando a grande insatisfação que se acumulava diante de novos desafios sociais e econômicos nas democracias ocidentais.

"Quando você contrata um encanador, ele deve ir até sua casa, diagnosticar o que está acontecendo e consertar o problema. Se os políticos não conseguem fazer essas coisas, não é nenhuma surpresa que as pessoas fiquem irritadas", diz a professora da faculdade Barnard, associada à universidade Columbia (EUA), em entrevista por videoconferência à Folha.

Para que uma nova onda de democratização aconteça, ela afirma, as pessoas precisam perceber não apenas que líderes autoritários populistas como Donald Trump e Jair Bolsonaro não entregam o que prometem, mas acreditar que a oposição tem algo melhor a oferecer.

A sra menciona no artigo do Journal of Democracy que os cientistas políticos deveriam ter previsto a crise democrática atual. Por que isso não aconteceu?
Os Estados Unidos eram considerados uma democracia estável há muito tempo. Assim como em outros lugares, como na Europa Ocidental, colocávamos esses países em uma categoria em que, embora seus sistemas democráticos pudessem certamente evoluir, não nos preocupávamos com a possibilidade de eles sofrerem um retrocesso. Não pensamos como muitas das tendências que ocorriam nessas democracias poderiam começar a minar o apoio a elas.

Nos Estados Unidos, há uma insatisfação crescente com as instituições democráticas. Sabemos, pela história e por pesquisas comparativas, que, quando muitas pessoas estão realmente insatisfeitas, quando acreditam que essas instituições não estão trabalhando a seu favor, elas se tornam muito receptivas ao apelo daqueles que hoje chamamos de populistas, pseudoautoritários, radicais ou extremistas.

Muitos estudiosos perceberam o aumento da insatisfação nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, mas não imaginaram, e me incluo nisso, que, apesar dessa insatisfação crescente, nossas instituições estariam tão vulneráveis.

As pessoas estavam entusiasmadas com a democracia no início da década de 1990, após a queda da União Soviética, e também durante a República de Weimar [na Alemanha, antes da ascensão do nazismo]. Por que essa grande expectativa acaba se transformando em insatisfação generalizada?
As pessoas ficam insatisfeitas quando acreditam que as instituições democráticas, os partidos políticos tradicionais, não estão atendendo às suas necessidades. Elas podem ser econômicas: "Acho que não estou indo bem. Estou preocupado com o futuro. Sinto-me muito inseguro". A imigração tem sido uma grande preocupação.

Sempre há algumas pessoas irritadas em uma sociedade grande. Mas, quando um grande número começa a pensar que o sistema não está funcionando para elas, se tornam receptivas aos apelos de extremistas. As especificidades da origem dessa insatisfação variam de país para país, de época para época.

É preciso ver os antidemocratas como sintomas de uma insatisfação subjacente e como aqueles que aprofundam essa insatisfação. Eles fazem as duas coisas. Esse tipo de pessoa chega ao poder e aprofunda as divisões na sociedade, a raiva, o ressentimento, mas não há dúvida de que eles também são sintomas disso.

Os partidos deveriam elaborar políticas que atendam a essas demandas e preocupações, ou tentar esclarecer as pessoas sobre o que está acontecendo, para que suas preocupações diminuam um pouco. Quando você contrata um encanador, ele deve ir até a sua casa, diagnosticar o que está acontecendo e consertar o problema, ou explicar a você como evitar esse problema no futuro. Se os políticos não conseguem fazer essas coisas, então não estão fazendo o trabalho deles, e não é nenhuma surpresa que as pessoas fiquem irritadas.

Você também menciona no artigo o que chama de política da "Weltanschauung". O que é isso?
É um termo alemão que significa visão de mundo. A ideia é que não se quer que a competição política se concentre nesse tipo de questão moral ou de visão de mundo que gera divisão. Deveria se concentrar em coisas como: devemos ter impostos mais altos ou mais baixos? Mais regulamentação governamental ou menos? Mais imigração ou menos? Mais gastos com educação ou mais gastos com defesa?

Se você acredita que um político ou um partido que está chegando ao poder ameaça todo o seu modo de vida, tem uma ideologia ou uma visão de mundo tão ameaçadora que você não vai apenas se sentir desconfortável com a vitória deles, mas potencialmente disposto a considerar todo tipo de coisa que possa impedi-los de chegar ao poder ou de exercer esse poder… É um termo que, de certa forma, diz: quando a política se torna esse tipo de questão de vida ou morte, isso é uma ameaça para mim.

Você também escreveu no artigo que derrubar ditaduras sempre foi mais fácil do que construir democracias duradouras. Recentemente, Kim Lane Scheppele [professora do departamento de sociologia da Universidade Princeton, nos EUA] disse algo preocupante em um podcast: nos últimos 50 anos, nenhuma recuperação democrática após um período de crise durou mais de cinco anos. Por que você acha que isso acontece?
Kim Scheppele é uma estudiosa incrível da democracia. Não sou tão cética em relação a essa afirmação sobre a história, mas acho que, neste momento, é um pouco difícil dizer... É claro que há muitos países que passaram por experiências democráticas fracassadas e depois voltaram a ser democráticos. Não é verdade que, se houver um retrocesso, não seja possível voltar atrás.

O que estamos enfrentando agora, em lugares como a Hungria, a Turquia, potencialmente nos Estados Unidos ou no Brasil, é esse tipo de situação intermediária, em que as instituições democráticas foram enfraquecidas, mas não totalmente eliminadas.

No passado, as democracias morriam. Sabíamos que estavam mortas. A questão era: tudo bem, como derrubamos a ditadura e iniciamos um novo tipo de regime político que seja democrático? [Agora] a questão é, quando as instituições democráticas começam a se deteriorar, como podemos fortalecê-las novamente?

O problema é que um novo governo assume o poder e diz "nosso trabalho é restaurar a democracia", e eles enfrentam um grande número de obstáculos para fazer isso porque você está lidando com as mesmas instituições. Você não tem mandato para uma mudança constitucional ou para uma limpeza radical. Muitas pessoas do antigo regime ainda estão no Judiciário, na burocracia, nas escolas, na imprensa.

Então, há uma certa preocupação de que você possa acabar em uma dessas situações, em que você fica constantemente oscilando entre Bolsonaro e seu filho, com um interlúdio de uma figura política mais comprometida com a democracia. Há um pequeno avanço, depois um retrocesso.

É interessante porque, no Brasil, as instituições garantiram que Bolsonaro não pudesse mais concorrer, já que ele tentou um golpe. Mas, além da questão institucional, estamos vendo que os eleitores ainda sinalizam haver uma grande demanda por líderes como Trump, Bolsonaro ou o filho dele.
As pessoas não vão acreditar na democracia se não virem que ela está trazendo resultados.

A maioria das pessoas não tem nem tempo nem interesse em passar a vida inteira estudando política. Para elas, é tipo: "Eu elejo políticos e partidos para administrar o governo, assim como eu contrato um encanador ou um profissional da construção civil. Se eles não estiverem fazendo o trabalho direito, então eu simplesmente vou ficar muito irritado e estarei disposto a considerar outras opções".

Essa é uma maneira totalmente razoável de reagir.

O jornal The Washington Post revelou que Trump planejava enviar dois oficiais ao Brasil para levantar dúvidas sobre a lisura do processo eleitoral. Essa dimensão transnacional é um novo desafio da crise democrática atual ou já estava presente?
Os autoritários sempre ficaram felizes em ajudar outros autoritários. Trump é uma figura especial, ele é o presidente do país mais poderoso do mundo e, por isso, pode mandar seus lacaios fazerem todo tipo de coisa. Ele está definitivamente interessado em manter seus amigos no poder. Ele vê os Bolsonaros como um desses tipos. Putin tem uma grande operação de influência. Os chineses também. Eu veria isso como algo absolutamente preocupante. Mas será que é algo novo? Não.

E quão poderoso você acha que pode ser esse efeito Trump em eleições estrangeiras?
Isso varia de país para país. Trump se tornou particularmente impopular na Europa, os partidos populistas de direita em vários países europeus agora não têm mais nenhum interesse em seu apoio. Ele é tóxico. Mas esse tipo de intromissão ou influência é mais útil quando acelera uma tendência já existente.

Obviamente, havia na Colômbia um desejo por esse tipo de solução pseudoautoritária, do tipo "lei e ordem". Trump pode ser um pouco útil nesse sentido, dizendo algo como: "Olha, esse é o meu candidato". Mas ele não vai criar apoio para esse tipo de político separado do fato de que já existe uma demanda da sociedade por eles.

Pode ser que essa crise democrática seja apenas mais uma fase?
Espero que sim. Será preciso, mais uma vez, que os eleitores percebam que os radicais, autocratas e populistas não estão cumprindo o que prometeram fazer. Eles não estão consertando o sistema que alegavam ser corrupto e ineficaz. E que, por outro lado, os partidos de mentalidade democrática tenham planos viáveis e atraentes para lidar com os problemas.

Temos agora um presidente nos Estados Unidos extraordinariamente impopular. O problema é que a oposição é tão impopular quanto ele, talvez até mais. Menciono isso porque ambos os lados dessa equação são absolutamente necessários. Por um lado, as pessoas precisam passar a acreditar: "Olha, demos uma chance a esses caras –os Bolsonaros, os Trumps, os Orbáns do mundo– e eles estragaram tudo". Eles não consertaram a economia, não fortaleceram a sociedade. Mas as pessoas também precisam acreditar que, além de o governante atual ter fracassado, a oposição realmente tem algo melhor a oferecer.

RAIO-X


Sheri Berman, 60
Professora de ciência política na faculdade Barnard (EUA), é doutora em governo pela universidade Harvard (EUA). Autora de "Democracia e Ditadura na Europa: do Antigo Regime Até os Dias de Hoje" (2019) e "A Primazia da Política: A Social-Democracia e as Dinâmicas Ideológicas do Século 20" (2006).

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