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Thursday, October 8, 2026

"Não podemos contribuir para a divisão da Aliança"

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O secretário de Estado norte-americano visita hoje Portugal, depois de visitar a Islândia e a Grécia. Marco Rubio termina em Lisboa o périplo de quatro dias pela Europa. Vai reunir-se com Luís Montenegro e Paulo Rangel pra discutir a defesa, a economia e a tecnologia. Está conosco Thiago Moreira de Sá, eurodeputado do Chega. Agradeço-lhe por ter aceitado o convite da Rádio Observador. Começo por perguntar como é que antecipa esta reunião e esta vinda de Marco Rubio a Lisboa.

Olá, viva, bom dia e obrigado pelo convite. Antes de mais nada, o que é preciso dizer é que esta é uma visita politicamente importante. É uma visita no momento em que as relações entre os dois lados do Atlântico já não estão na sua melhor fase. É uma visita que visa valorizar a aliança, desde logo entre os Estados Unidos e Portugal, e diria também no sentido mais vasto, o início de um caminho para valorizar a Aliança Atlântica, valorizar a NATO. E pra Portugal isso é muito importante, porque é sabido que Portugal tem um tradicional vetor atlântico da sua política externa muito antigo, desde Dom João I, desde a aliança inglesa, na altura com a Inglaterra, depois da Segunda Guerra Mundial, transferida para a aliança com os Estados Unidos da América. Na verdade, uma dupla aliança com os Estados Unidos da América, porque há uma aliança bilateral no acordo dos Açores e depois há uma aliança multilateral no acordo da NATO. Portanto, é o reconhecimento da importância dessa aliança, reconhecimento da importância do papel de Portugal, em particular dos Açores, do papel estratégico de Portugal para os Estados Unidos da América, e também é o reconhecimento da forma como Portugal esteve na questão da guerra do Irão, ao contrário de outros aliados. Portugal não só esteve ao lado dos seus aliados, os Estados Unidos da América, como respeitou o acordo que tem com o seu aliado e respeitou a aliança que tem com o seu aliado. As alianças têm regras, nos bons e nos maus momentos, e têm que ser cumpridas. Acho que há aqui um reconhecimento de Portugal e tudo que é bom pra Portugal é bom, evidentemente.

Falou da Base das Lajes. O Chega defende que o uso da base na Ilha da Terceira deva obedecer às regras estabelecidas. Diz André Ventura que os americanos não podem usar o território português como querem e quando querem. Considera que Luís Montenegro e Paulo Rangel deveriam aproveitar o encontro de hoje pra esclarecer melhor os moldes deste acordo?

É evidente que há um acordo e os acordos têm que ser cumpridos. As alianças também têm regras, desde logo estar ao lado dos aliados nos momentos bons e maus, mas também os aliados têm que cumprir as regras que estão estabelecidas nos acordos. E o acordo dos Açores, que é um acordo que eu conheço bastante bem, ainda na sua forma original de 1944, no acordo de Ponta Delgada, depois transitado para o acordo das Lajes em 45, 46, e depois suas várias revisões, até aquela que é mais falada, é bastante importante, mas é uma das várias revisões, a revisão de 1995, tem regras muito claras, quer da utilização da Base das Lajes por parte dos Estados Unidos da América no âmbito bilateral, quer a utilização da base em operações da NATO. E essas regras são claras e o governo garantiu que essas regras foram cumpridas. Portanto, se as regras de um acordo tiverem que ser cumpridas, isso tem que ser, obviamente. Portugal é um país soberano e tem que fazer valer a sua soberania e tem que fazer valer a sua importância também estratégica. Isso, evidentemente, às vezes obriga a ser duro mesmo com os amigos e com os aliados. Agora, neste caso, não só o governo diz que todos os termos do acordo foram cumpridos, temos que aceitar na palavra do governo, mas também a questão é uma questão essencialmente política. É política em termos gerais, como eu disse há pouco, mas também é política por conta deste momento muito particular, em que nós vivemos em que Portugal e os países europeus têm que decidir de que lado é que querem estar, se querem estar do lado dos Estados Unidos da América ou do Irão, se querem estar do lado das democracias ou das autocracias, se querem estar do lado de quem respeita os direitos humanos ou quem mata pessoas que estão apenas a protestar por melhores condições de vida e por democracia e por liberdade. Os números da União Europeia estimam ser à volta de 35 mil iranianos que foram assassinados pelo regime, fora os casos agora de condenações à morte por enforcamento e outros casos. Também é um momento em que nós temos que decidir de que lado é que estamos, porque as autocracias não têm dúvidas. Essas têm uma aliança cada vez mais reforçada com o Irão, com a Rússia, com a China, com a Coreia do Norte. As democracias é que se vão dividindo, saindo todas, obviamente, a perder, porque todas saem mais fracas. Nós não podemos contribuir pra essa divisão da Aliança Atlântica, não podemos contribuir pra divisão das democracias. Pelo contrário, o que nós temos que fazer é reforçar a aliança das democracias, até porque elas estão sob ataque. Estão sob ataque sobre aqueles que querem pôr em causa o nosso modo de vida livre, democrático, plural, tolerante, baseado no Estado de Direito, na separação de poderes, nos checks and balances. Nós temos que defender isso. E te dizia que já é uma questão política, geopolítica e também de valores, porque os Estados Unidos partilham os valores essenciais, aqueles que eu referi agora, conosco. E essa é a questão fundamental.

E neste momento, como disse, em que as relações entre os Estados Unidos e Portugal e a União Europeia estão um pouco tremidas e falou em fortalecer as relações, considera que é mais importante neste momento, e falamos aqui de defesa, Portugal fortalecer estas relações com a NATO e com os Estados Unidos do que investir propriamente na defesa dentro do bloco dos 27? Falo aqui do programa Safe, este investimento de quase 6000 milhões de euros.

Sim, as duas coisas e as duas coisas são complementares. Portugal tem uma visão muito clara há muito tempo sobre isso, que o reforço das capacidades de defesa da Europa devem fazer-se primeiramente no âmbito da Aliança Atlântica. E pra Portugal isso é fundamental pela nossa característica específica de ser um país europeu, mas também atlântico, um país euro-atlântico em simultâneo. E, portanto, pra nós é muito importante que seja nesta conceção de uma defesa europeia que seja complementar à NATO. Agora, os países europeus também têm que ser no seu conjunto, cada um por si, também têm que ter a capacidade de defesa robusta, um hard power significativo, pra poder defender os seus interesses, independentemente de tudo o resto. Não podem depender de ninguém, a Europa não pode depender de ninguém, os Estados membros da União Europeia não podem depender de ninguém para garantir a sua defesa, desde logo o que está em causa é a sua segurança e não somente a sua sobrevivência, mas também os seus interesses. Seja dos amigos e dos aliados, que devem ser valorizados, seja de quem for. Portanto, a Europa estar, através do reforço das capacidades dos Estados membros, todos eles, estar a fim das suas capacidades militares, é bom Aliás, é um autorr remédio desde que começou a guerra da Ucrânia, que foi uma verdadeira muda fadera, que infelizmente isto nem sequer já é uma questão de opção, é uma questão de necessidade. Há uma guerra a ocorrer na Europa e a Europa tem que ter capacidade de se defender em termos clássicos. Além de quem não tem hard power, a história demonstra isso há séculos, quem não tem hard power, quem não tem poder militar, não é capaz de defender os seus interesses, inclusive económicos.

Há poucas semanas disse que o discurso de Ursula von der Leyen sobre os estados da União serviu mais para dividir do que para unir e mostrou que a Europa nunca esteve tão precária. Como é que acha que a União Europeia deve responder a estas tarifas impostas pelos Estados Unidos e também se este deve ser um tema posto em cima da mesa hoje pelo primeiro-ministro e pelo ministro dos negócios estrangeiros?

A questão não está neste exatamente em cima da mesa, acho que se deve estar entre os irritantes que não estão neste exatamente em cima da mesa. Agora, a questão das tarifas, a posição tem sido sempre desde o princípio muito clara. Nós vamos evitar por todos os meios uma guerra comercial com os nossos aliados dos Estados Unidos da América e uma guerra comercial em geral, devemos evitar isso, que é mau para a economia, é mau para toda a gente. A economia internacional e a economia europeia já está sob uma pressão brutal. Na Europa, países fundamentais como a França, Alemanha, estão sob uma pressão brutal do ponto de vista económico e macroeconómico. Nós devemos evitar por todos os meios. E também devemos evitar por todos os meios, como disse há pouco, uma divisão com os nossos amigos e aliados democráticos, porque isso é o que querem os nossos inimigos. Portanto, devemos fazer tudo o que pudermos. Agora, nós temos também que defender os nossos interesses, isso obriga a ter tudo em alerta. Não podemos excluir nada, não devemos entrar num caminho de retaliação, porque isso é negativo para toda a gente. Devemos tentar o foco total na capacidade de chegar a um acordo e de negociar e chegar a acordo. Mas temos que ter todos os instrumentos, nós temos que ter capacidade de defender os nossos interesses. Ser amigo e ser aliado não é ser submisso. Os interesses da Europa e os interesses portugueses são muito concretos. Felizmente, no essencial, são partilhados, desde logo em termos de segurança com os nossos aliados norte-americanos, mas quando não são, nós temos que ter capacidade de defender os nossos interesses. Agora, o que eu também queria dizer é que no caso da von der Leyen, das lideranças europeias, o problema não está na Europa, não está na União Europeia, está nas lideranças. Uma Europa forte é desejável, é necessária e desejável. Estas lideranças europeias não só enfraquecem a Europa, como têm uma visão da Europa que é profundamente negativa. O caso da von der Leyen é um exemplo claro disso. O que eu disse nessa altura foi que von der Leyen veio aqui ao Parlamento Europeu fazer o papel de líder de fação, de líder de um partido, de líder do PPE. Aliás, basta ver o que disse sobre alguém que estava na sala, que até perdeu as eleições, Viktor Orbán, parecia a líder do governo húngaro. Isso é mau, isso é negativo. E não só a Europa não serve dividir com os seus aliados atlânticos e com os seus aliados democráticos, mas dentro da própria União Europeia, nós não devemos estar a fomentar divisões. O que a von der Leyen fez e faz é fomentar essas divisões. Isso é negativo, quem beneficia são os nossos adversários políticos, não é nada contra o país, evidentemente. São adversários políticos, estamos a falar, evidentemente.

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