215 candidatos acumularam ao menos R$ 208 milhões em multas ambientais

Desse grupo, 46 concorrentes já enfrentam cobrança administrativa ou judicial de R$ 49,4 milhões (referentes a 90 autos de infração). O valor atualizado da dívida pode ser ainda maior devido a juros e correções monetárias.
Entenda o critério do levantamento
- Vínculo pessoal: a análise considerou apenas infrações vinculadas diretamente ao CPF do candidato, excluindo autuações emitidas contra empresas das quais políticos sejam sócios.
- Autuação não é condenação: o auto de infração é um ato administrativo. Ele garante amplo direito de defesa e recurso e não equivale a condenação criminal na Justiça.
- Valores históricos: as cifras refletem a emissão original de cada multa e não representam necessariamente a dívida consolidada hoje.
Os maiores alvos de cobrança
O candidato a deputado federal por Roraima Paulo Quartiero (DC) encabeça a lista de autuações em cobrança ativa. Ele soma 16 autos que alcançavam R$ 52,4 milhões na origem —dos quais 13 multas (R$ 34,8 milhões) já foram ajuizadas e estão sob cobrança na Justiça Federal.
Além das sanções financeiras, Quartiero acumula seis termos de embargo territorial do Ibama. Juntas, as áreas interditadas somam 9.131 hectares — extensão equivalente a mais de duas vezes o Parque Nacional da Tijuca, no Rio de Janeiro.
Paulo Quartiero foi procurado pelo UOL por meio do Instagram e do telefone diretório estadual de seu partido, mas não respondeu até a publicação desta reportagem.
Decisões judiciais e contestações
O maior valor nominal registrado em um único CPF é de R$ 67 milhões, associado a Daniel Messac de Morais (Mobiliza), candidato a deputado estadual em Goiás. O político reúne seis autos, sendo o maior deles de R$ 50 milhões, aplicado por suposto desmatamento de 5.157 hectares na APA Triunfo do Xingu.
A Justiça Federal, porém, anulou a autuação em primeira instância em abril de 2025, apontando que um parecer técnico do próprio Ibama indicou que o desmatamento ocorreu em outro imóvel, sem vínculo comprovado com Messac. A decisão estava sujeita a recurso e a reexame obrigatório.
Outra autuação de R$ 8 milhões ligada a ele foi cancelada durante a homologação. Por isso, a soma histórica de R$ 67 milhões não configura dívida atual do candidato.
Já na disputa pelo Executivo, o candidato ao governo do Pará Daniel Barbosa Santos (Pode) responde a um auto de R$ 1,4 milhão lavrado em junho de 2024. O Ibama atribui ao candidato o desmatamento não autorizado de 279,75 hectares de floresta nativa em Tomé-Açu (PA), área que também foi alvo de embargo.
O processo ainda está em fase inicial ("prazo para homologação/defesa"), momento em que a autuação pode ser revista, cancelada ou confirmada. O valor também não representa dívida executada.
Nenhum candidato à Presidência da República teve registros vinculados ao próprio CPF no levantamento.
Daniel Messac de Morais e Daniel Santos também foram procurados pela reportagem por meio de rede social e telefone diretório estadual de seu partido, mas não responderam.
Norte e Centro-Oeste lideram autuações
O estado de registro da candidatura aponta o Tocantins como líder em número de políticos autuados, seguido por polos agropecuários e de fronteira mineral e florestal:
- Tocantins: 19 candidatos
- Minas Gerais: 17 candidatos
- Pará: 16 candidatos
- Roraima: 16 candidatos
- Mato Grosso: 14 candidatos
- Goiás: 13 candidatos
O estado registrado é o da candidatura atual; a infração ambiental pode ter sido cometida em outra unidade da Federação.
Restrições de terra somam milhares de hectares
As penalidades vão além das sanções pecuniárias. O levantamento identificou que 81 candidatos estão ligados a 141 termos de embargo do Ibama —instrumento que proíbe atividades econômicas em áreas degradadas para permitir a regeneração da vegetação.
O ex-senador Ernandes Amorim (PV-RO), candidato a deputado estadual em Rondônia, reúne quatro termos de embargo que cobrem 1.728 hectares —dimensão comparável à da ilha principal de Fernando de Noronha. Amorim tem oito multas históricas (R$ 6,7 milhões), sendo quatro delas (R$ 4,62 milhões) já encaminhadas para execução judicial.
As áreas embargadas representam a soma das coordenadas cadastradas no Ibama, sem dedução de eventuais sobreposições de polígonos, e não comprovam a posse definitiva da terra.
Procurado pelo UOL, Ernandes Amorim também não respondeu até a publicação desta reportagem.
O peso do Legislativo nas decisões ambientais
Para especialistas ouvidos pela reportagem, a presença expressiva de candidatos autuados nas disputas proporcionais acende um alerta sobre a futura composição do Congresso Nacional e das Assembleias Legislativas.
"A escolha de deputados e senadores costuma receber menos atenção do eleitor do que a corrida pelo Executivo, embora sejam essas casas que definem as políticas públicas e o marco legal ambiental do país", afirma Wilson Bueno, professor sênior da ECA-USP e especialista em Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
Bueno adverte que o debate socioambiental vem sendo escanteado no calendário eleitoral e defende o acompanhamento sistemático dos mandatos como ferramenta de controle social.
A advogada indígena Maíra Pankaru alerta para o efeito das decisões políticas. Ela afirma que projetos de exploração de recursos e as discussões no Congresso devem considerar os povos indígenas, quilombolas e outras comunidades que vivem nas áreas afetadas.
Os recursos que os políticos desejam explorar, como o petróleo, não estão em lugares vazios.
Maíra Pankaru, advogada especialista em direito dos povos originários
Metodologia e transparência dos dados
Bases consultadas: O cruzamento utilizou o arquivo de candidaturas gerado pelo TSE em 15 de agosto de 2026 (20.436 registros no DivulgaCand) e o cadastro do Sicafi/Ibama, com situação processual checada em 9 de setembro de 2026.
Critério de identificação: Cada candidato foi localizado unicamente pelo número do CPF cadastrado no registro oficial do TSE.
Tratamento financeiro: Os valores refletem os montantes nominais de emissão original, convertidos para o padrão monetário vigente pelo Banco Central quando necessário. Os valores não foram corrigidos pela inflação nem refletem os juros da dívida ativa.
Dinâmica processual: Como os sistemas do TSE e do Ibama são atualizados continuamente, alterações posteriores no status das candidaturas ou decisões administrativas nos processos podem alterar as estatísticas consolidadas.
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