Ed Motta diz que vida sem contradição é medíocre e sem graça ao lançar disco
"Se eu fosse americano, minha vida não seria assim", é o que canta Ed Motta em "Manuel", seu primeiro sucesso, de 1988. Ao longo das décadas, o cantor declarou sua admiração aos Estados Unidos, chegando a dizer que se sentia como um americano fazendo música no Brasil. Mas, na verdade, não é bem assim.
"Falar que sou americano é uma forma de provocar. Faz parte da minha personalidade. A música brasileira mudou a forma como passei a compor", diz. "Mas essas frases eu adoro. Sou um frasista."
Tão conhecido por declarações polêmicas quanto por sua música nos últimos anos, Ed Motta lança "Toc-Toc", seu 15º disco, nesta sexta-feira e quer fazer as pazes. Não com quem discorda de suas opiniões, mas com instâncias de sua arte das quais estava afastado —o pop, a língua portuguesa e até as batidas eletrônicas.
"Tinha vontade de ter um disco mais pop, com maior grau de comunicação. Eu estava fazendo coisas barrocas, com orquestrações imensas e as letras mais complexas. Queria algo que tivesse a leveza de um queijo quente", diz.
Ed se refere à guinada que deu na carreira a partir de 2013, com o disco "AOR", seu último em português, que também teve versão em inglês, até "Toc-Toc". Vieram três álbuns cantados no idioma, voltados ao público estrangeiro, pela gravadora alemã MPS. Foi um período de aprofundamento da complexidade de sua música, que absorveu ainda mais o jazz e o soft rock, além das harmonias e arranjos intrincados.
"Toc-Toc" chega agora com toques electro-funk que lembram o começo de Ed na música, com os discos "Conexão Japeri", de 1988, e "Um Contrato com Deus", de 1990, quando ele era um adolescente. Mas o clima dançante de baile black agora dá lugar a um fim de tarde à beira-mar. Ed resgata o balanço pop e algumas texturas dos anos 1980, mas canta sobre querer ser feliz numa atmosfera contemplativa e etérea de R&B que mais reforça do que nega sua herança musical brasileira.
"Esse disco é cheio de programações de bateria eletrônica, coisa que falei milhares de vezes que nunca mais faria", diz. "Isso é oriundo do meu passado de roqueiro. Carreguei essa doutrina radical para a minha vida."
Hoje aos 55, Ed Motta afirma que se vê em paz com "quase tudo que escutei de música" e se diz "menos implicante com minhas coisas". Soa como um processo de aceitação de uma carreira conturbada que começou cedo, quando o cantor tinha uns 15 anos e carregava o peso e o privilégio de ser o sobrinho músico de Tim Maia.
Os percalços começaram no disco "Entre e Ouça", de 1991, em que Ed fez o que queria a despeito das pretensões comerciais da gravadora após o sucesso da música "Manuel". Foi um fracasso de vendas que hoje virou peça cult.
Aos 21 anos, ele ficou sem contrato e deixou a Tijuca em busca do sonho americano. "Fui conhecer música brasileira depois de 1992, quando fui aos Estados Unidos e me desinteressei pela música americana. Gastava uma grana alta comprando discos do Hermeto Pascoal. O que eu mais ouvia lá era Chico Buarque", diz. "Tinha um pensamento diário —não estou gostando. Fiz de tudo para estar lá, mas queria voltar."
No retorno, embrenhado nas influências musicais brasileiras, achou que teria mais portas abertas. "Mas não. Era tipo ‘queremos você americano para o resto da vida’". Ed Motta diz que só a Universal topou lançar o que seria seu novo álbum, com a condição de que fosse uma produção comercial e capitaneada por Liminha.
"Eu estava muito duro. Tinha voltado dos EUA com US$ 300 no bolso. Falei que, para não pagar aluguel, vou precisar ajoelhar no milho e fazer um disco que não quero", diz. Maior sucesso da carreira de Ed, "Manual Prático para Festas, Bailes e Afins" ganhou o rádio em 1997, com hits como "Fora da Lei" e "Vendaval", e rendeu uma sequência, "As Segundas Intenções do Manual", com "Colombina", lançado em 2000.
O período de maior popularidade foi também o de maior tristeza para o artista, que passou décadas sem conseguir ouvir aquelas faixas e criticando as baterias eletrônicas criadas por Liminha.
"Foi uma violência para mim aos 20 e poucos anos", diz Ed Motta. "Uma das tantas violências que passei, que se refletem num monte de ações minhas. As pessoas não sabem o que passei para chegar aqui com a quantidade de neurose que tenho. Achava que minha música estava sendo deturpada."
Quase 30 anos depois, esse sentimento arrefeceu, ao ponto de o novo álbum aderir às batidas eletrônicas. "Hoje, [‘Manual’] é um disco de que gosto, mas levei tempo. Das canções sempre gostei, mas não gostava da moldura. Hoje acho a formatação interessante, mesmo com uma coisa plástica", diz. Liminha foi então um visionário? "Podemos dizer isso."
O que mudou foi a idade. "Para o mundo de hoje, 55 é um garotão, mas comecei muito novo. Me sinto cansado", diz. "É um leão que se mata a cada dia. E muito remédio tarja preta para segurar tudo. Terapia, não. Acredito em remédio."
Aquelas influências de música brasileira só desaguaram no álbum "Dwitza", de 2001, até hoje um dos mais celebrados, mas mal recebido pelo público de "Manuel" e "Manual". "Foi o disco que me exportou para Europa e Japão, mas no Brasil fiz shows em que metade da plateia ia embora. Era tipo, ‘mas não vai ter ‘Fora da Lei’? ‘Manuel’?’", afirma. "Fiz um negócio radical. Paguei um preço alto. Tem cidades e regiões em que nunca mais toquei."
Ali se solidificou a persona pública de gostos refinados —para muitos, elitista— que Ed Motta defende hoje. Mas ele afirma que isso vem de berço. "Meus pais eram pessoas extremamente sofisticadas. Gostavam de Fellini, Buñuel, Antonioni. Meu pai lia muito", diz. "Não viam novela."
Já seus lados "leonino" —o que se acha genial— e "ditador" —que não crê em criação coletiva na arte— não vieram da família. "Godard dizia que todo artista é um ditador em potencial. Não estou falando de decidir o futuro de um país ou tratar de injustiças. É arte. E a arte de verdade não é feita em conjunto —seria como fazer xixi junto no banheiro."
Foi a partir desses lugares que Ed passou a colecionar polêmicas. Disse que sua plateia na Europa era "mais culta", chamando brasileiros de "turma simplória", afirmou que fãs de rap eram "burros" e chamou de "falha de caráter terrível" o fato de Raul Seixas ter trabalhado em gravadora. Em todas essas ocasiões, ele depois veio a público pedir desculpas.
"É parcialmente um personagem, mas muito daquilo sou eu. O humor, a acidez, o sarcasmo, o cinismo, tudo isso vem junto", diz. "Adoro que me amem, mas saber que irritei é uma delícia. Desde o colégio, sempre adorei ter metade da turma me amando e metade me odiando. Nunca quis ser uma unanimidade."
Em uma das polêmicas, Ed demitiu um roadie em pleno show. Criticado, apontou indignação seletiva, já que artistas como Maria Bethânia —que "não sabe nem tocar piano", disse— não receberiam o mesmo tratamento ao repreender equipes ao vivo.
Ed diz que seu nariz torcido com a MPB não vem de inveja. "Só não acho que esse grupo tenha feito as coisas mais progressistas do país. Eles conseguiram um poderio muito bem organizado. Mas tem gente —haja vista Moacir Santos— ignorada até hoje, enquanto outros são incensados, os necessários e tudo isso."
Em maio, Ed se envolveu numa confusão em um restaurante no Rio de Janeiro pela cobrança de uma taxa de rolha. Jogou uma cadeira no chão em vídeo que rodou as redes e foi investigado por injúria por preconceito após chamar um barman de "paraíba". Depois de novo pediu desculpas.
"Foi a coisa mais triste que já passei na vida, essa porcaria dessa cadeira que joguei no chão", diz. "Agora, em relação ao Nordeste, tem um termo que se fala tanto que ironizam —’quem me conhece sabe’. Mas foi realmente um fato isolado, não um comportamento sistemático meu. Tenho milhares de nordestinos como ídolos. Tânia Maria, Moacir Santos, Hermeto Pascoal, Cassiano."
Ele afirma que não xingou diretamente o funcionário, e, sim, disse as ofensas em áudio, de um ano antes, ao dono do restaurante. "Estava enfurecido, louco de raiva, e falei aquele monte de bobagem. Aquilo sim é uma coisa leviana, que me envergonha. E não ‘Ed Motta acha que tal artista é ruim’."
Mesmo com o jeito provocador e a cara de sério —que fez questão de ostentar no ensaio fotográfico para a Folha—, Ed Motta é um sujeito carismático e um contador de histórias nato. Diz que odeia a banda Jamiroquai com a mesma franqueza que relata ter vendido discos raros de sua vasta coleção para comprar vinhos.
Afirma que a música parou de ser boa nos anos 1980, mas acha o baixista atual Thundercat "maravilhoso", enquanto o saxofonista Kamasi Washington "é gente fina, foi na minha casa". Está radiante por ter virado personagem de quadrinhos, uma de suas paixões, em "As Aventuras de Ed Motta - Aplausos e Enigmas".
Bebe vinho umas três vezes por semana —sempre um branco e um tinto— e costuma ouvir cerca de dez discos diariamente. Acorda cedo, dorme cedo e não dirige, mas adora escutar música nos carros de aplicativo que pega.
É, sobretudo, uma pessoa feita de contradições. "Sem contradição, a vida não tem graça. Uma vida de coerência é uma coisa medíocre. A coerência é medíocre. Prefiro ser um incoerente. A incoerência é muito mais inteligente."
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